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Visões do Desterro – Geografias de um Sonhar Impossivel

In ARTE on 16/10/2013 at 18:36

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Visões do Desterro, Geografias de um Sonhar Impossível

É intrínseca parte da acção do homem no mundo a sua ânsia de ir mais além, uma sede permanente de estar noutro lugar, a irresistível vontade de se transcender, de partir a descobrir, de se reinventar e reconstruir em permanência. Pode mesmo dizer-se que não fosse por esta inevitável e constante curiosidade e ambição, estaríamos ainda, e sempre, amarrados a uma condição primária de seres eminentemente naturais. E bem longe dos actuais paradigmas de imersão tecnológica, científica e urbana, que afastaram definitivamente a imensa maioria de nós da natureza, do simples, de uma relação mais horizontal e comedida com a vida e com o mundo.

Ao contrário, o lugar que ocupamos no presente é constantemente relegado e ignorado, em prol das projecções contínuas que vamos fazendo permanentemente. Quais fantoches tristes como escravos, subjugados pelos sonhos e desejos infinitos que os controlam e restringem. Este perigoso mecanismo que nutrimos e nos domina, transforma em desterro o lugar do agora. E apenas o sonho constante de outro mais pleno e novo encontro/descoberta, parece conseguir alimentar essa ideia de plenitude, satisfação, felicidade. E assim vivemos, enjaulados nesse persistente projectar psicológico, ritualizado e vicioso, de uma partida contínua; imaginária e escapista, delirante. Sempre rumo a essa metafórica, falsa, crucial viagem. Eis então, afinal, um mais que triste apanágio do nosso involuntário sonhar: uma redução estruturante, carente, – nascente circular fechada e activa -, do estar vivo.

O próprio Sonho é, portanto, indicador da condição de Desterro. Pois apenas de um lugar de percebida pobreza e aprisionamento, – e independentemente das reais condições em que vivamos -, se torna possivel e mesmo imprescindível a criação de outra realidade concreta, outra paisagem, outro ser, outra vida. E é assim que surge a Viagem: enquanto meio/caminho para alcançar essa plena condição sonhada; através de um também imaginado Encontro com essa condição/essência maior. Este outro estado é no fundo apenas a projecção desejada, numa aparentemente praticável realidade, de outro mundo. Agora, mais de acordo com o que nos é, e será, – para sempre, – apenas em sonhos revelado.

E chegados a esse novo lugar/estado, descobriremos, num misto de fascínio e desencanto, que também ele se nos revela em claro desterro. Pois a faminta qualidade ansiosa e sonhadora que nos é inerente, nunca se suspende, nunca pára, nunca se apazígua.

Assim, e no contexto do Ano Portugal Brasil, a curadoria entendeu desde logo transcender meras razões de natureza histórica e geográfica; assumindo antes uma orientação de natureza poética e difusa, incerta e fantástica, no tratamento desta temática de deslocamento, procura, projecção, desejo. Interessou-nos aqui, – mais do que circunstâncias de ordem da relação entre dois países tão próximos quanto afastados -, esboçar em poética aberta momentos possiveis de uma inescapável condição de insatisfação, desejo, suspensão, encontro, desencanto. A circularidade infinita e obrigatória deste percurso, decorrente da própria natureza humana, é pontuada então por estes quatro passos de um ilimitado caminhar, – circunscrito apenas à própria busca de maior significado e alcance, – que a todos caracteriza: Sonho, Viagem, Encontro, Desterro.

Então, e assim já vagamente identificado este desterro, – enquanto lugar subjectivo e primordialmente interior -, poderemos apenas pretender vislumbrar dele algumas visões prováveis, que vão surgindo aqui bem ao longe: como gotículas ínfimas mal definidas ao cego olhar, e que escorrem, lentas, entre milhões e milhões de outras inventadas mas possíveis, nos sulcos avermelhados e profundos da grossa pele-espelho, que separa apenas um homem solitário, de toda a outra enorme humanidade.

Sonho

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É enquanto fenómeno de alternativa realização, – surgido a partir de um espaço de insatisfação e desencontro, de limitação e incompletude, – que o Sonho se manifesta e se impõe autônomo, embriagante e pleno, num acontecimento total: uma dimensão paralela nascida das inescrutáveis mas fundamentais sementes de um outro desejo, maior, que para sempre nos acompanha. Adormecido, ambicioso, latente, subversivo.

Neste primeiro passo de um circular percurso que nos espera em repetição, esgueiramo-nos em firme abordagem, numa disposição visual e táctil. Descobrimos assim algumas obras que fazem parte possível dessa inicial aventura, – ainda apenas estilhaçada, nestas visões prováveis de um exilio. E cujo insatisfatório e estreito caráter é aqui já bem definido e sublinhado, pela onírica onda que dele nasce.

De um abismo escuro e desconhecido no caminho mais à frente, em que já estamos e nos revemos, na obra de Jorge Molder, (Da Série o Pequeno Mundo); à ironizada elevação conceptual e religiosa do terço profano de Isaque Pinheiro (1/3); do encontro reconfortante e sóbrio do corpo no video Casal de André Cepeda; à comunicação enquanto exercicio platónico e hermético, poético e absurdo, na Soundpiece #3 (Rio de Janeiro) de João Ferro Martins; da espacial dispersão/libertação horizontal do corpo de Devires (Grelha Meio Isométrica) de Nuno Sousa Vieira; à inviabilidade do presente a que se contrapõe uma imagem de presença, em The American Sunset de Rui Calçada Bastos: eis alguns momentos possiveis deste sonhado desfile disforme, aqui revelados. Estas serão assim exemplares manifestações dicotómicas de um encontro impossível e sempre adiado. Entre o ter e o desejar, entre o o corpo e a palavra, entre o aqui e o além, entre o presente e um futuro. Afinal, entre o limite e o ilimitado.

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Se o sonho acontece – imponderável e descontrolado, fruto maior a querer raiz – como inevitável contraponto de resposta a um estado de limitação e carência, (e apesar de estar a este pontualmente amarrado na sua essência), é nesse sonhar que se manifestam as forças e objectivos a prosseguir, os obstáculos a ultrapassar, o mais autêntico espaço a alcançar.

Será então avançando assim, em desequilibrado e onírico movimento, pela esparsa fronteira entre o sonhado e o vivido, o desejado e o concreto, o desconhecido e o factual; que viveremos todas as horas da vida; e cada momento do mundo. Sempre encantados por um vir a ser. Talvez.

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Viagem

O deslocamento faz-se de paisagens breves que sempre mudam, e também interiores, de arrastadas e incompletas despedidas; das cores borradas e confusas de lugar nenhum; da espectativa ansiosa e crua, dolorosa e iludida, do que está por vir e alcançar. Afinal, da passagem enquanto estado de fugidia permanência.

Perdido nessa encruzilhada em movimento, – um parto constante a querer firmar-se, – e ausente de conhecidas referências, o sujeito navega, encravado, entre as peripécias dúbias da memória e as ilusões difusas da esperança. E são estas que dialogam, alto e surdas, numa conversa que cresce sempre, ininteligível, solta, desencaixada. Aqui, muitas vezes, revoltos momentos surgem e se impõem, abrasivos, redutores, estranhos; em disrupção, sem finalidade ou origem definida. O viajante é assim ponto movediço e frágil do encontro entre o que podia ter sido e o que virá, entre o desejado e o nada, entre aquilo que sonha e o que nunca será. E nessa ambígua e perdida deriva avança, sentindo grave a solidão de estar só, bem para além do que jamais sentiu ou esteve.

Convencido da importância irredutível dessa ascendente manobra que é o seu avançar, investe, caminha, adianta; ignorante do que não pode saber. E iludido no seu pequeno sentir, quer transformar-se, por fim, num maior ser. E em concreto, fazer-se.

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Algumas cenas possiveis dessa fragmentada aventura identitária surgem aqui: Nas fotos de André Cepeda da série Ontem, em que para trás ficou o abraço triste e cru da nua despedida, a destruição, o conforto e a ruína, o lugar hermético e azul, casa, do qual apenas cada um sabe o que guarda seu interior; na imersão estética e aquática de Adelina Lopes em Imagem Cheia, afundamento claro noutra dimensão, transparente e comunicante; no deslocamento da referência/fronteira, resignificação angular e estranha de Sousa Vieira em Entre (da série sem soalho); nas imagens de Tatiana Macedo da série Orientalism and Reverse, em que o meio de transporte é um ambiente/sombra intimista a descobrir e habitar, e o exterior um mero reflexo baço e distante; ou na obra de Jorge Molder da série O pequeno mundo, em que um registo fotográfico do sujeito feito ao espelho, o rosto indefinido mergulhado no escuro, parece dizer muito da incerta condição de entre-identidades, que assiste ao deslocamento fundamental de qualquer importante viagem sem regresso previsto.

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Metáfora maior da própria vida, a viagem reúne em explosiva combinação conceptual todos os relativos e subjectivos valores primordiais que sempre achamos pertinentes: o avançar em autodescoberta e crescimento; a enriquecedora dinâmica de encontro e relação com o desconhecido; a criação de instrumentos e recursos, próprios e fundamentais, para uma vida inteira; a liberdade de escolha do destino/natureza do que queremos ser e viver no nosso tempo.

Mas, como já vimos e sabemos, muitos são os ímpetos ilusórios e descabidos que provocam a partida; e mais ainda os desconexos mas bem reais elementos distantes e desencontrados da chegada. E nesse longo percurso, de esperança e desespero feito, espreita já um crucial e feroz erro de estratégia e alvo. A revelar-se, bem lentamente, em orfão estado; muito depois de já dado o mais largo passo.

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Encontro

Digamos agora que o encontro não é uma chegada, antes um ponto de partida para outra (con)vivência, o início de uma nova história em que também nos descobrimos e reconhecemos em relação; uma dicotomia profunda de estranheza e brilho: a acção inaugural de nós no outro, e dele em nós. O recomeço noutro lugar é sempre feito de expectativa falhada e deslumbramento, de feliz encontro de iguais e desilusão; de um aprendizado incerto e difícil, empírico, saído do desbravar (des)iludido de um enorme desconhecido.

O estrangeiro que vai para ficar integra nesse movimento duas oposições fundamentais: o firme desejo de deixar de o ser, a assumida vontade de se transformar em habitante desse lugar escolhido, de alguma forma rejeitando a sua própria origem/natureza/condição. E também a pretenção, fortemente implícita, de encontrar nesse estranho além as possibilidades, caracteristicas e oportunidades que lhe permitam por fim desenvolver-se, crescer, afirmar-se. Sempre em concordância de identificação com esse grande não-conhecido.

Os resultados destas duas motivações disruptivas – rejeição de si próprio/passado/conhecido, e projecção de um outro/futuro/desconhecido – na realidade da sua existência, no porvir, são na prática sempre incertos e imprevisíveis, muitas vezes dolorosos e incontrolavéis. E a consciência clara desse crucial deslocamento é assim, neste inicial momento de um espraiado encontro, pela primeira vez pressentida e manifestada.

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Encontramos então aqui algumas manifestações pontuais da vivência primeira, pragmática e psicológica, com o novo, o diferente: o caminhar de fora para um lugar interior por abrir e descobrir, na imagem de Molder (Da Série Não tem que me contar seja o que for); a planta, representação universal de um espaço por habitar, acompanhada de referências afetivas e distantes, de Julião Sarmento, em 182. Wittgenstein Blue; a porta/passagem/entrada de estrutura distorcida, complicada, deslocada, de Sousa Vieira em Tal como porta; o ténue resquício perdido do som longínquo/memória do mar na instalação de Ferro Martins Soundscape #1 (Rio de Janeiro), o video Episódica #1, do mesmo artista, em que a atracção e a sedução se encontram num convite irresistível e subtil ao encontro/mergulho; e ainda o abismo burocrático e identitário da integração legitimada nesse outro coletivo social/profissional das Reference Letters de Joana Bastos.

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Assim, nas malhas movediças e apertadas do primeiro encontro, entrechocam-se claramente os obstáculos e os objectivos, os corpos sonhados e as ruas desertas, a vontade de união e a parca linguagem, os costumes que somos e o que não entendemos.

Mas nesse momento mais que límpido da vida, – o reinício em chegada, – espreitam-nos já também todos os atos plenos, todas as grandes etapas, todas as emoções e vitórias, os novos e diferentes hábitos, que o futuro bem esconde ainda, em parcimónia.

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Desterro

Sempre o ponto/porto de chegada carrega desafios de novas partidas por encarar; a dura realização pragmática de vontades e projectos; o confronto duradouro e quotidiano entre um objectivo preconcebido e a vivência de facto; o desbravar afirmativo e empírico de outras realidades e conjunturas: cidade, linguagem, função, social, pessoa.

Aqui nasce a redundância surda e absurda que é atributo denominante da vida do homem: chegado onde queria chegar, descobre distante a sombra dúbia e irregular dessa imaginada plenitude, esvoaçante, fugidia e estranha, inexistente; ou quase. Descobre a obrigatoriedade circular e infinita, – e exterior à sua vontade, – desse roteiro/movimento. Vê que na natureza do novo lugar estão inscritos não os momentos que tanto quis e sonhou, mas sim já os genes retorcidos de outros inevitáveis sonhos, as difíceis conquistas que sempre valem pouco, a escala imensa de uma dimensão que tentou em vão reduzir a seu jeito. Sempre estreito no seu imbecil projectar, mais querer, sonhar.

Vê-se agora bem espelhada na exterior realidade a insuficiência e a insatisfação que moram e morarão sempre no seu profundo interior, ser sedento e caprichoso que é e será sempre, irredutível nessa fome delirante e fantasiosa que ele próprio alimenta; construindo imagens de mais; de muito; de pleno. Prisões que depois se condena assim a habitar, imaginadas riquezas ficcionadas que lhe escapam, inexistentes, como as fluidas areias esvoaçantes do mais fundo profundo do mar.

Em compulsão delirante, ilusóriamente visionária, o homem sonhará sempre, eterno refém desse escape de aumentar que o mantém activo e preso na luta por aquilo que jamais alcançará. Pois na sua alucinante capacidade de desejar- transformada em somatizado precisar, – nada nunca lhe será suficiente. Assim, viverá sempre encurralado entre o real que o rodeia e o sonhado que lhe escapa; como um animal pequeno e tonto, incapaz de ficar onde está; de viver o que tem; de ser o que é.

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Algumas visões deste extenso desterro parecem então querer aqui surgir, pontuais momentos de uma incomensurável dimensão transversal: Nas Bandeiras de André Cepeda, filme de um não lugar que é todos, intemporal e desbravado, despido de calor e sentido na sua crueza, desértica e selvagem, de bandeiras sem signo rasgadas ao vento; na pós-modernidade luminosa, impessoal e gélida, do led de Joana Bastos, Pescadinhas de Rabo na Boca, que repete em espiral viciosa as frases “Foreigners must have a job to get a National Insurance Number” e “Foreigners must have a National Insurance Number to get a job”, kafkiano ditado louco e redundante a normatizar, em contraditória pretenção paradoxal, o estrangeirado; na imagem de Jorge Molder da série Não tem que me contar seja o que for, em que um misto de espectativa, impotência e disponibilidade parece definir a chegada a esse lugar, ainda virgem mas já estéril; na Trepadeira nº5 de Mauro Cerqueira, em que partes de uma persiana não oferecem protecção, mas antes criam um espaço de tensão e risco ao serem atravessadas por longos pregos; em Abaixo da Superfície, de Nuno Sousa Vieira, em que um linóleo do atelier do artista é recortado numa referência invertida e murcha ao projeto do artista e arquitecto russo Tatlin, do início do século passado, e nunca realizado, de um monumento soviético à modernidade e à utopia comunista; e ainda na obra de João Ferro Martins, Can you tell wich kind of blue i am thinking of?, em que escutamos o ruído de um rádio desventrado em dessintonia, que alimenta a leitura sonora da imagem de uma fonte que jorra água no meio do campo. Ao idilico cenário campestre é trazido um distorcido sentido sonoro, num casamento infecundo de estranheza e frio.

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Mas tudo isto será sempre apenas vagamente pressentido e percebido, ao habitarmos a vaga ilusão onírica de um etéreo colectivo, inconsciente; e que a todos rodeia e une, firme e abstrato, englobante, em permanente e murmurada energia e relação.

Nesse desterro em que tudo mora e que tudo habita, ensaiamos façanhas de efeito dúbio e beleza estranha, impulsionados e geridos pela força bruta de um estar vivo. Sem outro remédio ou cura que o caminho, esboçamos, inclinados, passos sôfregos pela vida; cambaleantes sonhadores bem acordados. E como meros invólucros, – cheios de um processo lento e ôco que nem sentimos, – acolhemos forças e vontades a nós alheias, influentes correntes que em nós aportam, sequiosas de um porto-abrigo descontente. Pois esmagados na matéria difusa que o tempo traz, encurralados entre o passado que foi e um jamais virá, é periclitante o equilibrio pastoso do que seremos. Talvez assim: como sombras tortas, longas e atordoadas, sempre aquém desse mais que legítimo lugar sonhado. E condenados, ad eternum, a um frustrante sempre agora, um escorrente fio, eterno e fugidio.

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Breve Obituário Crítico, Também Luso

Artistas, como semideuses encarnados das pequenas coisas, inventam, belos e marginais, maravilhosas obras luzidias, em que reflectem, em tons de desafinado spotlight encandescente, os uivos libertários da sua condição de passageiros, cenas obscenas e deslumbrantes da condição de todos, de nenhum, de um qualquer, e agem, sublimes e infinitos para além do tempo do corpo, como se fosse verdade aquilo que cantam, embriagados na lúcida luz da arte, entontecidos num fazer apenas, rasgando, inúteis e siderais, todas as coisas vistas, todos os cantos de côr e luz, algum momento que reste, e em interrompido recomeço finalizado, semeando uma pátria nova azul por sentimento, sonhado, invadem, gritantes, supremos, superiores, o olhar brilhante com um futuro bom aberto, e com a força assim chegada e suficiente, acabam com tudo de vez e para sempre, que não seja um novo rumo a caminhar, em passo e tom novos e diferentes.

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Jorge Emanuel Espinho

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O Amor de Luiz Zerbini – Tropical Total ou Intuição, Sensação, Iluminação, Carácter

In ARTE on 04/02/2013 at 17:59

No Tropical tudo está sempre ligado e quente, tudo se toca e se acrescenta, tudo cresce e se ilumina, vivo, espesso, sensual, colorido. O Tropical é a inveja do mundo porque ali mora a verdadeira intensidade – mesmo quando subtil -, a que exige abertura e atenção disponível, a que recompensa com paixão calma, segurança alargada, alegria. Na luxúria embriagante do trópico habita a sincronia confusa mas reveladora do meio – não divisor mas unificador -, ponto de encontro dos extremos em fusão enriquecida, total e sobreaquecida, exagerada, das sensações que iluminam e alimentam o mundo. Viver nesta realidade que é um permanente e complexo tesouro descoberto, só se faz sério com despojamento e liberdade nas sensações, abertura e leveza no sentimento, ambição e segurança nas emoções. Para colher desta real e cravejada multiplicidade preciosa é necessário a alma calma de um garimpeiro louco, no corpo perdido de um marinheiro. A profícua deriva da vida, o Amor. Luiz Zerbini nasceu em São Paulo em 59. Adolescente, experimentava insights ao passear aos domingos pela cidade vazia, entrando numa rua e sentindo como a luz se transformava em escuro, o ruído das cores no ar, o silêncio, os raios do sol a descer, a terra mais fria naquela enorme sombra, a imponência vertical dos prédios, a tontura, embriagado nessa visão tudo lhe dava a entender de repente a natureza verdadeira das coisas, tudo lhe tocava, e acordava nessa dormência, clarividente e sensível, inundado na emoção, pensava na nuance da côr, no efeito da luz, transcendia-se assim, de corpo inteiro, via-se iluminado nesse estado. E aberto, solto, entendia. O seu professor de pintura Van Acker, atribuiu essas experiências ao facto de ele ser, afinal, um artista. Zerbini ficou surpreso, mas acreditou.

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Brasilia, 2011.

Esta vivência e aprendizagem sensacionista e contínua da vida, que se traduz numa disponibilidade e atenção crescente ao pormenor mas também ao óbvio  – pois em tudo mora o significativo, o magnífico -, alimentou a sua relação com a pintura, e é também profundamente alimentada por ela. Essa circularidade mágica é assumida e sublinhada pelo artista. Nasce da privilegiada naturalidade dos que reconhecem na exterioridade a multiplicidade significativa da vida verdadeira, quando reconhecida e transformada pelo crivo sensivel e único de cada um. A arte de Zerbini é uma imersão reconstruída da experiência exótica de estar vivo, deslumbramento constante de reconhecimento e identificação, testemunho do generoso percurso a que a vida nos autoriza, assim estejamos livres e receptivos, abertos e sinceros, autênticos num lugar nosso, que será sempre de passagem e relação.

Importa saber reconhecer a verdade que habita no caos do acaso, pairar o olhar como um pincel a ver melhor, escolher as cores profundas que melhor iluminam. É nesse significativo processo que o artista se alimenta, e que vai devolvendo depois – enriquecidos e aumentados ele e a experiência – ao mundo, a nós, a súmula pertinente desse cíclico percurso, feito pertinente paisagem. Mais do que implícita nesta estrutura activa de vida está a desmistificação da hierarquia das coisas, dos fenómenos, das pessoas. A contribuição é total, livre, autónoma.

Quando propôs ao editor Charles Cosac o livro Rasura – transbordante documento que demoraria 10 anos a completar, e representa uma súmula possível do imaginário e do método do artista, preenchido de referências, imagens, obras, palavras e esboços, seus e de outros  – e lhe transmitiu a vontade de explorar nele a verdade do seu universo criativo, suas influências, seu processo, seu caminhar, a pergunta veio certeira: “E você não tem medo?” ao que respondeu “Sim, mas isso não é razão para não fazer!” Esta honestidade e seriedade são raras e desconcertantes, e o resultado foi um fabuloso e generoso testemunho da complexa mas livre teia que representa o mundo particular do artista.

A primeira imagem desse livro configura uma importante revelação sobre a relação de Zerbini com a arte e o tempo: num enorme espaço expositivo dezenas de pinturas de todas as épocas e estilos encontram-se espalhadas, paralelas mas em vários graus de distância e proximidade, de frente para o visitante. Apetece percorrer os espaços entre aquelas pinturas saídas de vários tempos, de vários lugares, de várias idades, mergulhar naquele mar onde tudo conversa, tudo se relaciona, tudo faz parte. É assim, diz Zerbini, “que entendo a história da arte, sem essa coisa do tempo. É tudo sincronizado!” É impossível não relembrar aqui os insights do artista, por ele descritos como “Um bombardeamento de informações simultâneas, uma avalanche de sensibilidade”.

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Um dos mais nobres estandartes do regresso à pintura nas artes plásticas brasileiras, Zerbini não se fica por essa expressão, que domina e exibe como poucos. Membro do colectivo sónico e sonoro Chelpa Ferro, Zerbini foi actor, cenógrafo, faz instalações e colagens, escultura, ilustração, escreve, e vai construindo uma obra que é uma paisagem única que se intersecciona, feita de vasos comunicantes interligados, pelo fluxo de que são feitos. Plena, luxuriosa, viva. O ser tropical manifesta-se assim naturalmente numa profusão de meios, sempre atento e reflexivo, generoso e profundo na sua aportação à vida, matéria prima total de que bebe e que alimenta, transformador e sensorial, livre e consciente, lúdico, criativo, intenso.

No MAM do Rio, Zerbini apresenta agora a fabulosa exposição Amor, e apresenta-se nela, inteiro. Divide-se em três partes essa mostra, geografia impossível de um mapa simbólico, total. Uma parte ocupa três paredes que parecem abraçar o visitante: luxuriosas pinturas de vários metros quadrados que são uma janela enorme e complexa com vista para tudo, súmula pejada de signos e símbolos que mergulham na natureza e saiem dela, a tecnologia, a luz e a côr, o urbano, o impressionante universo pictórico de uma mão que inventa a reproduzir a experiência única do viver, e a natureza. Neste conjunto se encontra High Definition, selva viva de 2,5m por 4m que demorou um ano a pintar todos os dias; acompanhada de outras paisagens e ambientes, todos intensos, todos rigorosos, todos admiravelmente profundos, completos, sedutores. À esquerda, caveiras – símbolo várias vezes revisitado por Zerbini – seguram do chão as obras, qual contrapeso absoluto, lembrança do efémero, homenagem poética ao humano sentir e pensar da vida.

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High Definition, 2010

Na parede oposta outro tipo de trabalho: slides antigos colados formam pequenos painéis, criam jogos de côr, pequenas imagens desconhecidas mas familiares sugerem memórias, talvez inventadas talvez distantes; surgem ironias de familiaridade, as viagens, a praia, o prazer; a descoberta, a infância, a arte, a moral… Este jogo lúdico, para o artista também zona de descanso da pintura, talvez assinale a importância difusa da memória – subjectiva e abrangente, importante mesmo quando oriunda da vivência dos outros – enquanto espaço móvel a que regressamos, visitantes curiosos e sedentos, saídos da oblivion particular que sempre nos acompanha, crescente.

Mas é no centro da enorme sala que se parece jogar o meio – do latim medium -, o esparso eixo, o espaço vivo tropical que é origem e destino, fonte e produto, fim em princípio, essência e forma; o país particular do artista em que as relações infinitas de distante proximidade e de próxima distância se alimentam, mudam, mutam; o âmago íntimo e aqui partilhado que o criativo habita e transforma; a ponte múltipla que o alimenta e dispara, em todas as direcções, como uma esponja ensopada e sedenta, bebendo sempre.

À maneira de uma mesa de estudo naturista – tradição formal com ecos na obra e postura de Zerbini – uma enorme bancada acolhe inúmeros objectos, plantas, insectos, troncos e folhas, areia, superfícies de reflexão e côr, frascos de vidro e imagens, tudo ali, o gabinete possível de vivência do artista, uma cama/casa completa onde aos sonhos se sucedem os dias e ao deslumbramento a relação. Em misterioso entrelaçado entre horizonte e vertical, côr e conteúdo, sensação e olhar, carne e conceito, eis o precioso Planeta Zerbini. A descobrir!

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Mais uma vez aqui impressiona a profusão delicada mas explosiva de referências e relações, e a coragem com que esse caldo produtivo é revelado; a simplicidade disponível do artista, consciente e afirmativo das misteriosas e profícuas relações com que o acaso tempera a criação e a vida e alimenta o ser e o sentir, o estar, o pensamento. Mais do que acolhimento, nesta mostra sentimos a envolvência desejosa de ficar e mergulhar devagar, nessa multiplicidade tropical e quente de um olhar e sentir o mundo, despidos nesse movimento, alcançando o que só de fora preenche, o natural ocupando o particular, a exuberância plástica da selva também interior, tradução poética que a arte faz, da misteriosa rede das coisas e dos acasos da vida.

20110830085732-MW4524_Mamangu_-RecifeMamanguà Recife, 2011

Mas quatro passos parecem querer se definir como a tal tragetória circular importante na vida e obra de Zerbini:

1º – A Intuição. O guia e o impulso na deriva, a ambição e a soltura no olhar, leve e selectivo, cuidadoso, delicado.

2º – A Sensação. Descoberta e reconhecimento do fenómeno, o calor do encontro, a experiência, a relação.

3º – A Iluminação. A integração do mundo, a corporização, a consciência, o excesso e o crescimento.

4º – O Caráter. A essência condicionante e transformadora de tudo, a nova forma de ser e de estar, sempre em mutação, o enriquecimento fertilizador e estruturante.

Estes quatro degraus formarão assim uma escada única em espiral infinita, cíclica e sempre activa, pulsante e abrangente, uma filosofia criadora feita acção, vida e relação. Talvez seja esta ambiciosa e orgânica forma de ser e de estar, este caráter, a maior contribuição de Zerbini, pintor poeta que nos entrega nessa estrutura, uma elevada mas acessivel versão completa a ser vivida, do tal ser maior tropical.

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não é sobre o que se está vendo

é sobre o que se está ouvindo quando se está vendo

não é só sobre o que se está ouvindo quando se está vendo

é sobre o que se está sentindo quando se está ouvindo o que se está vendo

não é só sobre  o que se está sentindo quando se está ouvindo o que se está vendo

é sobre o que se pensa quando se está sentindo o que se está ouvindo quando se está vendo

não é o que se pensa quando se está sentindo o que se está ouvindo quando se está vendo

não é o que se está sentindo quando se está ouvindo o que se está vendo

não é o que se está ouvindo quando se está vendo

é só o que se vê

Luiz Zerbini

Catálogo Electrónico Exposição Amor: http://www.automatica.art.br/livros/catalogo_zerbini.pdf

Jorge Emanuel Espinho

A Cidade Sonora de Floriano Romano – Babilónia Afectiva, Segredo, Utopia

In ARTE on 15/10/2012 at 13:44

Num espaço amplo dominado pela presença imóvel de colunas grossas de pedra, no meio da cidade, bem no meio da cidade, descansam orelhões azuis deitados, cada um cantando a sua melodia. Gritando e não gritando, segredando alguns baixinho, dizem todos os sons coisas várias do lugar longe de onde vêm. Esta música de outro tempo escreve-se em mistura naquele espaço, fundindo-se e sobrepondo-se colorida numa massa contida apenas pela nossa limitação de ouvir; parcial sentido que só nos vai entregando uma parte pequena daquela sonora floresta de invisiveis recantos.

É inventando a trilha por entre os jorros particulares do registo sonoro que vamos deambulando, na privada aventura da descoberta de uma ilha em mutação permanente no meio da cidade; e que como ela, se faz também da amálgama cacofónica de mil linguas e vozes, de rumor sublime e selvagem, de cor e tecido intocáveis.

A várias partes do mundo o artista pediu registos sonoros numa intenção que terá mais de afectiva homenagem que de estratégico, e que marca esta obra com a carga forte de uma clara vontade: a construção de uma cidade privada e simbólica – suspensa e imaterial mas sólida e complexa, ruidosa e corpórea – feita de histórias e lugares reunidos num critério de curiosa e disponível afinidade; sempre decorrente de uma cumplicidade verdadeira e natural.

                                                   

Por esta construção nascida de um cosmopolitismo íntimo e exclusivo somos convidados a derivar, testemunhos do incompreensivel turbilhão que vamos atravessando, e ignorantes perdidos do mapa de relações e sentimentos em que assenta esta teia, feita das origens e fontes diversas que vivem espalhadas pelo universo particular do artista, e pelo mundo.

Parece no entanto que este ambicioso hino à criação de um mundo singular de selectividade afectiva – que criteriosamente excluí o acaso e a obrigatoriedade de convivências não profícuas ou involutárias – carrega no seu valor metafórico o germe de uma afirmação politica, consciente e pessoal, o impulso claro de uma vontade transformadora da articulação social: será sobrepondo ao ruído descontrolado e caótico da humana multidão a minha mais fértil teia de relações, que inventarei um espaço de liberdade criativa, de descoberta, de transbordante mas elevada conversa, de verdadeira habitação plena da vida.

A Cidade Sonora de Floriano Romano quer fazer-se em cada um – íntima, livre, sem fronteiras – como a mais fecunda das Babilónias!

Este será assim o lugar privilegiado que construímos e habitamos, presentes os que mais nos fortalecem, estimulam e alimentam; uma escolha assumida que vamos fazendo, rejeitando a roda perdida e louca do mundo; afirmando-nos como arquitectos do nosso imediato meio, superiores a leis de corpo, conduta, geografia, fronteira… Este é um espaço de colectiva liberdade, onde a única regra é a nossa livre escolha dos outros, companhia que se afirma depois pluralmente ruidosa e produtiva!

Como numa construção que premia a eleição enriquecedora do outro diferente, sublinhando a complementaridade e o engrandecimento através da união e do encontro do não igual, encontramos aqui a convivência de facto de registos que lá fora, na vida, se encontram perenemente afastados pelo frio absoluto da distância. Floriano Romano dá aqui corpo à sua utopia particular: esta cidade será a sua Babilónia Afectiva, espaço de partida para uma entrega e aprendizagem em vivência aberta e complexa; um manancial segredado feito rumor elevado; um coro de canções distantes a marcar na proximidade a construção multifacetada do verdadeiro colectivo possivel. Desgarrado, caótico, inventivo, abundante.

Se esta obra é um alto exemplo incrível no seu simbólico e anárquico desbravar cocofónico de caminho, o seu carácter utópico não lhe retira força. Antes lhe empresta a energia mágica que sentimos, ao intuír o inalcançável território previlegiado, do que quereríamos que fosse a estrutura habitável da nossa vida em comum…

Em 1516 Tomas More publica Utopia – o não lugar – onde descreve uma ilha em que impera a ordem e o equilibrio, a tolerância religiosa e a ausência de propriedade privada, numa sociedade igualitária e comunitária. Encontramos na primeira edição da obra o Alfabeto Utópico, uma escrita criptográfica e simétrica, que desapareceria das edições posteriores. Ao invés desse reino equilibrado e harmónico, neste não lugar populoso de Romano é precisamente o forte atrito produtivo entre os sujeitos que cria a paisagem de vida do colectivo. E talvez ao contrário de um alfabeto novo a decifrar a realidade, nos seja aqui partilhado o segredo de uma maquete sonora assimétrica, ainda incompreensivel e bruta, de um novo esquema ambicioso: o rasgar de pretenciosas regências de ordem, de nação, de convivência, de linguagem…

Rio de Janeiro, Setembro, 2012.

Jorge Emanuel Espinho

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