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Isabelle Faria – Os Sete Pecados Mortais ou Os Abismos do Divino

In ARTE on 10/08/2011 at 15:13

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Se na sua primeira essência a religião surgiu da explicação que o homem deu aos fenómenos naturais que para ele irrompiam, marcantes e incompreensíveis, disruptivos e trágicos na sua vida, e cuja origem atribuiu então a espíritos, deuses e forças que assim transcendiam o mundo físico e tangível que ele desejava habitar, esta leitura ficcionada, inicial e básica, depois politeísta e pagã, logo se constituiu como um meio (lat.: medium) de tentar influenciar esses mesmos fenómenos e acalmar essas mesmas forças, desconhecidas, sobretudo em tempos de maior vulnerabilidade ou impotência, fraqueza ou espanto.

É da consciência da sua fragilidade e dependência face aos elementos da natureza selvagem que o rodeia, do facto de se sentir a vida inteira à mercê de acontecimentos que não controla nem compreende, do profundo medo da sua própria pequenez, que nascerá no homem – alimentado pelo desejo de explicar, de compreender, de controlar – o espirito religioso.

Com este parto, nada de muito bom poderia daqui originar.

O divino, como conceito original, explicativo do mal que era então preciso apaziguar, logo inspirou todo o tipo de comportamentos, belos e bárbaros, espirituais e selvagens, cruéis e mágicos, praticados sob a égide de sacordotes e shamans que alcançavam então grande poder e influência sobre os outros homens, assim desprivilegiados, relegados a inferior estatura e estatuto, seguros que se sentiam no entanto por se encontrarem sob a protecção de intermediários, mediums assumidos que apenas lhes indicavam o que era certo ou errado fazer, sempre segundo a mais elevada perspectiva do divino de que eram eles, os únicos, privilegiados e autoproclamados arautos.

Ao deificar as tempestades do céu e as águas do mar, as secas, as chuvas e as colheitas, as caçadas, a morte e os rios, as árvores altas e as rochas, ao subjugar a sua vida a uma condição de apaziguamento e procura de permanente benevolência aprovação e graça por parte dos vários deuses que encarnavam todas essas coisas das quais dependia a sua sobrevivência e vida, o homem inventou a moral religiosa.

O Bem e o Mal passaram a existir em função e como resultado do que agradaria ou não a entidades que apenas alguns conheciam e representavam, e que devolveriam ao homem, em tragédia de sangue ou em ouro branco, a homenagem escrava prestada na forma de viver os dias da vida. Com a crença na vida após a morte, comum em várias religiões antigas, os sacerdotes responsáveis por interpretar a vontade dos deuses ganharam ainda mais poder e ascendente sobre os povos, influenciando as suas culturas, os seus valores e hábitos, toda a sua história.

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Apesar do conceito dos pecados mortais ser anterior ao início do cristianismo, ele foi incluído na doutrina da igreja católica por volta do séc. VI pelo Papa Gregório I, e mais tarde revisitado por São Tomás de Aquino, teólogo dominicano, no seu tratado sobre o Mal – Quaestiones Disputatae de Malo. Inicialmente parte de uma lista de comportamentos e condições humanas a que se poderiam chamar vícios – por oposição a virtudes – e que se dividiu em dois tipos: os perdoáveis, e os mortais – sem remissão. Destes últimos, sete, resultaria a inapelável condenação ao Inferno, geralmente entendido e representado como o suplício das chamas eternas.

Os Pecados Capitais – do latim Caput (cabeça), assim designados por serem a origem dos outros pecados – como hoje são entendidos; serão: A Vaidade, A Inveja, A Ira, A Preguiça, A Cobiça, A Gula, A Luxúria.

Todos eles femininos férteis.

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Na sequência de uma longa tradição que contou nos seus primórdios, no século XV, com a distante e tão presente contribuição de Hieronymus Bosch, ou a mais recente e discreta, já no século XX, do alemão Otto Dix, entre muitos outros artistas, Isabelle Faria inaugurou, em 2006, um ciclo de trabalhos tendo como ambicioso ponto de partida precisamente os Sete Pecados Capitais. Tem avançado ao ritmo de um pecado por ano. Este é o ano da Cobiça.

Seria difícil não nos determos aqui um pouco sobre o que foi já feito. Pela diversidade de abordagens, pela segurança e soltura na relação – bem contemporânea – com um conceito já repisado e difícil, e porque sendo uma série e faltando apenas o pecado da Gula no próximo ano, a curiosidade sobre o que virá nos impele também a reparar melhor para o que já foi.

 

2006. Luxúria – Espaços interiores a preto e branco, pintados a óleo, desumanizados e vazios, paisagens ricas mas estéreis: o resultado oco da acção de uma líbido feroz porque triste, o buraco negro da limitação da carne, a solidão no centro do êxtase. Uma instalação, Lost Castle, 26000 cartas como um castelo murado, Babel, a metáfora da fragilidade labiríntica do vício, das construções delirantes do prazer, falsos castelos voadores bem presos ao chão, os amarrados eróticos.

 

2007. Ira – O descontrolo de uma civilização selvagem desenhado a carvão, um apocalipse permanente, intrínseco à bárbara cultura humana das máquinas, do fogo, do aceleramento imparável, da cavalgada colectiva em salto ao abismo. A Ira como força perversa e doente que contaminou, saída do vírus homem, todas as coisas e o próprio mundo, numa voragem universal e autofágica. Somos vítimas enjauladas e furiosas, presas nas gaiolas que inventámos.

2008. Vaidade – Vários carros em miniatura presos numa cruz luminosa de néon, que poderia unir o material ao espiritual, não fosse estar deitada rente ao chão, intransponível fronteira a sublinhar a pequenez e o absurdo do olhar fútil que lançamos ao espelho. Um carro vermelho acidentado que fumega, o airbag caído, murcho como o impulso mesquinho e vão das pequenas aparências cujo brilho opaco morreu há muito. Violentamente.

2009. Inveja – Retratos em grande escala de modelos, convidados pela artista, de um realismo brilhante, fotográfico, feitos na intimidade do seu atelier. É na familiaridade que surge a inveja. É no conhecimento que temos e aprofundamos dos outros que vamos descobrindo o que julgamos faltar-nos, e é daí que nasce a rancorosa relação de pequeno ódio ao que gostaríamos de ter, ou ser. Banal e transparente como uma conversa de amigos, em que se instala, ácida, silenciosa, desonesta.

2010. Preguiça – Desenhos impactantes a cores, sempre de realismo pulsante, mostram grupos de cães humanos luxuosos, vestidos, erectos, raivosos. Animais humanizados que cheiram a morte. A preguiça é o luxo da morte.

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A Cobiça

Por muitos considerado o maior dos pecados capitais, a origem e não a substância de muitos outros comportamentos imorais pecaminosos, a cobiça, segundo Tomás de Aquino, seria um pecado contra Deus no sentido em que ao obcecar sobre valores de ordem temporal o homem condena necessariamente os mais elevados, da ordem do eterno, da ordem do divino.

No Purgatório de Dante, que definiu este pecado como o desejo de privar os outros homens do que é seu, os penitentes eram deitados de cara virada para o chão, pois em vida se haviam concentrado demasiado nos bens terrenos, materiais. Temos assim, como nesta série de trabalhos de Isabelle Faria, os olhos assumidos como os responsáveis pelo mesquinho olhar que cobiça o alheio, profundos, negros e estéreis. O sentido da visão como a origem do sentimento de querer o que não lhe pertence. O que Dante nos mostra pelo castigo final, Isabelle nos mostra na sua práctica viva, na sua ânsia material desmedida que como um cósmico buraco negro tudo absorve, tudo deseja, tudo engole, tudo atravessa.

Olhar sem Ver…

Assim, o objecto destes desenhos atravessa simbolicamente os mais variados tempos da experiência humana, não se limitando a um tema, idade ou assunto mas antes assumindo um carácter transversal e aberto, pois são muitas as manifestações da cobiça, muitos os seus alvos e agentes, também aqui numa lógica de contaminação moral doentia que desconhece limites ou barreiras, campos ou corpos, a luz do sol ou a lua.

 

Um céu larvarmente vermelho parece atravessar cortante o lento correr dos anos…

É no luxuoso conforto quente de uma vida colorida e tranquila, – alcançada ao custo de muitas outras tristes vidas devassadas que não têm espaço ou expressão nesta – que a imoral animalidade que a possibilitou e lhe deu origem convive com o humano que acolhe. Possuindo-o, segredando-lhe, aquecendo-o.

Em muitos destes desenhos um classicismo se nos mostra, no estilo de alguns retratos de grupo, através de personagens saídas como que de uma máquina do tempo, como que de uma cornucópia avariada, vindos de um carnaval, de uma batalha, de uma festa, habitantes de um castelo; na presença de animais simbolicamente importantes, como aranhas e leões, lobos e ratos, uma medusa, demónios. Elementos vivos relativos ao mal, ao dominio sobre outros, ao despotismo, ao macabro, à doença, à morte. Esta intemporalidade que remete, abstracta e ambiciosa, para toda a história do homem, é suportada por uma técnica de expressão visual bem actual, feita com as cores de um tempo reconhecivelmente presente, o nosso tempo, que a atravessa, somando ao clássico o contemporâneo, numa abordagem perfeita, rica e completa, total.

De facto somos levados a uma universalidade intemporal, a um sentimento revelador, que como na memória das fábulas que por aqui também paira, desmistifica – agindo na névoa que se nos revela – o lado mais imoral e egóico do homem, a sua animalidade primitiva e sempre presente, pilar brilhantemente obscuro da civilização humana.

 

Isabelle mostra-nos um lado ganhador em toda a sua perversidade vitoriosa, em toda a sua explendorosa força e beleza, os dominios mais íntimos em que vegeta a cobiça, podre, a cumplicidade suja que constrói e mantém nas mais elevadas esferas do social. Também aqui nos questiona, através de um jogo de atracção e repulsa, sobre o nosso lugar na roda da escala de valores como práctica da vida. Ao intenso significado arquetípico destas imagens soma-se, na nossa identificação -de espectador- com elas, o reconhecimento em cada um da parte que lhe pertence como individuo. Aqui encontramos assim também um questionamento moral que nos é dirigido, em tom pertinente e actual, das escolhas que fazemos, do que vamos sendo na vida.

Ficamos espectantes na espera do pecado que o próximo ano trará, a Gula, a encerrar esta brilhante série de reflecção e trabalho sobre uma das lógicas mais cristalizadas da vida moral do homem, na sua religiosa relação com os mais primários instintos e impulsos de convivência.

Catálogo da exposição “Há Males Que Vêm Por Bem, A Cobiça”

Centro Cultural de Cascais, Portugal, de 23 de Julho a 18 de Setembro de 2011

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