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Louise Bourgeois – Sublimando Sempre do Passado, a Infância

In ARTE on 16/10/2011 at 16:02

Grande parte do que somos depende da qualidade do diálogo entre a delicadeza brutal dos episódios mais marcantes da nossa infância; e a   perspectivação consciente que deles vamos fazendo ao longo da vida. Se muitas vezes é o silêncio estéril – fonte inesgotável de fraqueza e derrota – que impera nesta relação; é quando alimentamos e exigimos uma dinâmica profunda com o passado difícil que conseguimos avançar e crescer para além dele. É preciso mais do que coragem para ir navegando esse mar alto, contra o vento, uma permanente bolina arriscada em improviso vital. Ir assumindo a travessia com firmeza, construindo-se com ela, ir partilhando as importantes notas da viagem: eis o desafio maior. Raramente aceite, menos vezes superado.

Os Primeiros Anos, Paris

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Louise Bourgeois nasceu em 25 de Dezembro de 1911 em Paris. Cedo sentiu o que seriam os germes que alimentariam o trabalho de toda uma vida, longa e produtiva como poucas. A relação com um pai cínico e autoritário, a figura protectora, tutelar e de saúde frágil, sua mãe; e a relação do casal – em que seria tolerado um longo envolvimento que a tutora da família manteria com seu pai -, tudo contribuiu de forma marcante para a formação de um espírito introspectivo e inquieto, curioso e perturbado. “Alguns de nós somos tão obcecados pelo passado que morremos disso”, escreveria muitos anos mais tarde.

Cedo a pequena Louise foi iniciada por sua mãe na arte do restauro de tapeçarias antigas, o negócio da família, reparar artesanalmente o que o tempo e o uso haviam estragado. Aos quinze anos de idade, forçada pela urgência maternal de que a filha lhe sucedesse com a maior competência, abandonou a escola. Nesta altura já a jovem alimentava um hábito solitário que a acompanharia a vida inteira: manter um diário em que registava com palavras e desenhos as suas reflexões e sentimentos, os frutos da insónia. Revisitaria sempre um passado perpétuamente presente: a sua infância, o que sentiu; o medo, o sonho e a raiva; a incapacidade de reconciliação; o apaziguamento que tarda e não chega. Tudo matéria prima para o seu trabalho, terapêutico.

Aos 21 anos Louise inscreve-se na Escola de Belas Artes, estudando depois matemática na Sorbonne, filosofia na Universidade de Paris, e história de arte no Louvre. Foi assistente de Fernand Léger, frequentou várias academias e ateliers; e trocou a matemática pela arte: “Voltei-me para as certezas do sentimento em vez daquelas que nos ensinam.”Fez gravura, pintou, desenhou. Em 1936 chega a sua primeira mostra colectiva, na Galerie de Paris. O seu apartamento parisiense ficava no mesmo edifício da Galeria Gradiva, de Breton, cuja porta havia desenhado Duchamp. No Louvre conhece Robert Goldwater, historiador e professor de arte norte-americano. “Em meio a conversas sobre surrealismo e últimas tendências nos casamos.”Partirão para Nova Yorque em 1938.

Carreira e Vida na América

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Em 1940 é convidada para a sua primeira colectiva americana, cinco anos depois para a sua primeira individual de pintura. Logo foi conhecendo os mais importantes artistas e galeristas da efervescente cena novaiorquina, como De Kooning e Peggy Guggenheim. Alguns dos quadros dessa altura, a série Femme-Maison, mostram figuras femininas nuas e partes do corpo, casas no lugar de cabeças; um imaginário de limitação e aprisionamento, o desejo de escapar das construções íntimas que nos cercam, de nós próprios.

Nessa década inicia o trabalho de escultura, pequenas figuras erectas em madeira que recriavam os familiares e amigos que tinha deixado em Paris. Figuras isoladas, totémicas, sem expressão definida, os habitantes das casas que tinha pintado, individualizados mas inertes, inanimados, assexuais. Sempre referindo-se a seus pais, à infância, a esse passado. Essa primeira série de esculturas, a que chamava Personages, foi exposta ao lado de artistas como Robert Motherwell ou Mark Rothko, nomes fortes do Expressionismo Abstrato. Esta tendência evoluiu até aos anos 50 com vários personagens numa mesma escultura, presos entre si, condenados a tudo enfrentar e a se enfrentarem também; unidos para sempre pela natureza das coisas, pelo acaso imperativo da família, o enorme polvo sempre presente. Louise era já mãe, de três filhos.

Nos anos 60 Bourgeois começa a usar materiais orgânicos – borracha, gesso, cera e argila – numa expressão tão explicita de temas sexuais e psicológicos, pujantes e subversivos, que a crítica logo a relaciona com o Surrealismo, bem conhecido dos seus anos de Paris. Nesta altura explora assim formas e estados eminentemente orgânicos. Aquele corpo que antes era apenas observado é agora mostrado e descoberto na sua interioridade, calma intensa.

Depois das Femme-Maison e das peças icónicas vem a visão do corpóreo e sua pulsão interior, seu ritmo quente. A simplicidade vital. Ninhos refúgios vivos em bronze, amibas brancas que ficam na parede quietas como quem espera, os Janus, peças fálicas caídas numa esperança patética, e as famosas e sarcásticas Filette: Falos enormes que parecem querer sublimar a expressão vulgar do ego masculino, satirizando a sua potência. Abre-se aqui uma maior soltura na relação com o corpo enquanto centro e contexto. Uma ironia no olhar, um distanciamento descontraído que denuncia um maior grau de aceitação; o avançar de um processo, analítico.

O apaziguamento virá apenas com o tempo, ou não virá…

Numa cruel fantasia da infância Louise assassina violentamente o seu pai para o devorar à mesa de jantar, esquartejado. Foi aos 63 anos de idade, em 1974, após muitos anos de psicanálise, de experimentação artística e escrita sobre os medos e a raiva cristalizados – herança indelével – que encenou essa épica experiência. The Destruction of the Father, obra intimista e poderosa, a primeira instalação e um dos seus mais emblemáticos trabalhos; poderia ser uma frontal resposta à ideia freudiana da filha que mata a mãe para se apoderar do pai. Num ambiente que lembra uma gruta ou paisagem primitiva, rodeada e encimada por bolbos como pedras, vê-se uma cama-mesa recheada de orgãos num festim macabro e visceral. Esta dupla simbologia concentra em si toda a história de uma repetida traição familiar; antiga e silenciosa, aceite por todos. Ponto de intersecção de todos os trabalhos da artista, aqui se resolve de forma actuante toda a história da infância que moldou a sua vida; dedicada a desmontar e reconstruir sempre esse mapa, circular e profundo.

De facto, a acção pensante de uma rara coragem.

Depois há Maman

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Em 1982, o MOMA de Nova Yorque dedica-lhe uma retrospectiva que finalmente traz reconhecimento do grande publico e da critica. Nos vinte anos seguintes produz instalações e esculturas que exploram a tensão entre a inocência e a sexualidade, entre as limitações e as pulsões do corpo, entre a acção do presente e a memória arquetípica. Introduz em vários trabalhos tapeçarias, bem conhecidas da infância. Belas torres de tecido e aço a lembrar as Personages, manequins femininos como deusas antigas, também o regresso à Femme Maison, esculpida em mármore branco; e aranhas… Numa clara referência a sua mãe, a aranha aparece em vários contextos, tecelã lenta e protectora mas perigosa, com a qual é preciso interagir. Na enorme escultura icónica de 2000, Maman, de 9 metros de altura, a artista sumariza simbolicamente a tensa relação afectiva com uma protectora que não a conseguiu defender das questões familiares que marcariam toda a sua vida. Num acto de expiação objectivada também aqui Louise, então com 89 anos, se supera de novo; partilhando e resolvendo sempre, com emoção e clareza, uma das maiores problemáticas da sua vida.

 

Mantendo-se activa até à sua morte em Nova Yorque em 2010, com 98 anos, Louise Bourgeois foi umas das artistas mais interessantes e controversas de sempre. Deixa uma obra extensa em que o permanente questionar e redefinir do papel que a infância e a família tiveram na sua vida, no seu “inconsciente vulcânico”, na sua arte, permanecerão actuais por muito tempo. A sua maior retrospectiva de sempre na América do Sul, num total de 112 obras realizadas entre 1942 e 2009, chega agora ao Brasil. Primeiro no Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, em Julho e Agosto; depois no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, entre Setembro e Novembro. Será imperdível lançar um olhar demorado a estes objectos profundos, saídos de uma viagem tão íntima e dolorosa quanto impactante e pertinente.

Revista Dasartes, Setembro de 2011, Rio de janeiro, Brasil

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