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Noites Claras (12)

In PROSA on 02/11/2011 at 15:08

Como não havia dinheiro nem ainda o seu conceito tudo era moeda de troca, e o valor de tudo tão oscilante como a necessidade do comprador, a vontade do vendedor, a cor do momento ou a chuvada que na noite anterior destruíra metade da vinha; retocando os tons do copo cheio de novos odores porventura mais profundos, aguçando a sede e o valor. Nunca se percebia bem como cada um se instalava na sua função mas aparentemente isso acontecia com uma naturalidade inquestionável, como se só aquilo ele pudesse fazer e aquilo lhe faltasse para o completar. Os ociosos preenchiam a paisagem vagueando pela cidade e pelos campos em conversas infindáveis e eram aceites tal como os loucos que vociferavam aos céus, protegidos por todos, também parte deles. As mulheres e os homens que trocavam o corpo e os afectos pelo que necessitavam ou queriam viviam solitários por escolha, e apesar de ninguém nunca querer vislumbrar bem na penumbra as silhuetas que entravam ou saíam de suas casas ao deitar do sol ou ao romper da aurora, ouviam-se felizes gemidos e ruidosas conversas e gargalhadas que invadiam sempre as ruas aos solavancos noite dentro.

 

A inclinação da encosta parecia desafiar as leis da física pelo que todas as casas se construíam ao longo da rocha que funcionava como a parede traseira a que se segurava o telhado e os postes que sustentariam todo o resto. Todas as casas estavam portanto viradas para as montanhas a sul, todas sempre de portas e janelas abertas, sempre um terreiro à frente que na práctica era um prolongamento do interior e que dado o clima quente todo o ano servia muito fácilmente para se comer, descansar, acenar a quem passava e parava para uma conversa que se transformava talvez  numa troca maior, para se dormir, para fitar aquele céu gigante de pinceladas roxas sem pensar em nada, só a respirar.

 

Como a rocha se tinha fixado em cambalhotas torcidas e curvas várias, toda a cidade era um enorme labirinto de pontes e passagens estreitas, estradas que acabavam em passadiços de corda sobre o abismo, escadas que levavam a pátios e corrais, cordas por onde se subia para chegar a casa, baldes pendurados de água quente ao sol, das janelas o cheiro a carne assada, a vinho entornado, a lenha que ardia na lareira, o som dos risos, das palavras, o martelar, os gritos das correrias íntimas, o véu que voa ao vento, grupos de putos a correr na areia grossa, um porco que grunhe ao longe sangrado na morte lenta, alguidares de sangue quente e fresco que fumegam na manhã, a tela grossa e velha a rasgar com o peso do milho novo, a água que apaga as brasas, o ferro quente batido pelas mãos do homem, a faca a cortar o pão, uma águia que grita ao longe, o granito que estala, uma porta que bate.

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