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Alejandro Somaschini – Antropologia Simbólica do Homem, Visão Profunda

In ARTE on 19/11/2011 at 17:56

Grande parte da arte que encontramos hoje é uma orquestração superficial e sedutora de cores e formas, ou uma desarmonia atraente de vários formatos cacofónicos, todos juntos; ou é feita de pormenores subtis sublinhados repetidamente, até à exaustão. Tudo interpretações vazias, fracas e fáceis. A pseudo-criação encorajada pela multiplicidade de meios acessíveis, saídos da selva de babel – a pós-modernidade egóica. À ideia de Beuys – Every man an artist – respondeu-se superficialmente, numa práctica esvaziada e subvertida, espalhada como uma maldição negra.

A relação com a arte e suas obras tornou-se de tal forma rápida e fácil, estreita e estéril, que é fácil escaparem-nos as histórias maiores; habituados que estamos às aventuras fugazes. Estas também frutos dos vícios da preguiça.

O trabalho de Alejandro Somaschini é o resultado de um processo em que ao garimpar do passado os simbolos marcantes da sua importância, vai construindo, agora, uma arqueologia viva para o futuro. Nessa procura o artista identifica actividades e rituais, símbolos e substâncias, profissões, hábitos e materiais; tudo pedras de apoio neste perceptido caminho da história do homem. Pegando no termo site specific, aqui encontramos uma relação maior, particular mas profunda e abrangente, com a cidade e o país em que o artista realiza o seu trabalho. Poderíamos cunhar o termo identity specific, já que a perspectivação antropológica e o método decisivo de aproximação histórica e social, sempre com algum sarcasmo e espírito critico, são terrenos de eleição no seu processo criativo.

Na sua individual do ano passado no Rio de Janeiro – na Galeria Progetti, de Paola Colacurcio, uma das mais interessantes da cidade – Cetus, o próprio título avisava que entraríamos numa narrativa em que apenas se intuiría o início, como da árvore alta uma raiz. Fomos aqui levados no percurso de uma história que tendo como ponto de partida a descoberta do fóssil de um cetácio mitológico – de esqueleto em pvc, nas colinas de Santa Tereza, um bairro do Rio – logo assume um carácter alienigena, experimental, futurista e primitivo; a relembrar as aventuras e atmosferas de William Burroughs. Aquela viagem pelos pisos da galeria era a aproximação a uma criatura impossível, simultaneamente intuída e desejada por nós – crianças maravilhadas num laboratório louco – e desconstruída na bela ironia fantasiosa da sua invenção. Mapas de constelações estelares e plantas de escavação; tubos de pvc, óleo de automóvel queimado em aquários borbulhantes e fórmulas quimicas sobre azulejos; tudo nos levava de um inicial ponto de partida cósmico, mágico e misterioso, até à interacção com materiais de uso local e quotidiano, numa aproximação à especificidade da cidade em que tudo é assim realizado.

Vamos da ascenção no desejo de uma pureza mitológica, corporizada; ao encontro com a sujidade das máquinas e do ruído da vida urbana, nosso quotidiano concreto. A matéria fossilizada, o sangue antigo do planeta, é expelido gaseificado nos escapes das avenidas…

No seu projecto Máquina de La Fortuna encontramos o sumário de um pensamento realista mas transformador e ambicioso; a par com a consciência das limitações da vontade cercada pelo que existe, de facto. Dentro de uma caixa de vidro bonecos de peluche representam galeristas e críticos, museus e curadores, coleccionadores e fundações de arte; o lado mais formal do universo no qual o artista obrigatóriamente se movimenta. Uma grua pende suspensa sobre eles, pronta a ser manipulada através de um mecanismo básico e hoje ultrapassado, numa acção reconhecidamente lúdica e familiar. Para além da óbvia referência à relação da arte com a tecnologia, encontramos neste objecto/acção uma metáfora aguçada e satírica sobre a fragilidade da complicada teia de relações inerente ao percurso do artista.

As politicas do meio artístico ironizadas, brincadeira de crianças…

No ano passado Somaschini expôs em Lisboa, no Carpe Diem, a convite do entretanto desaparecido fundador e curador da instituição, Paulo Reis. Arquivo Carpe Diem resultou mais uma vez da introdução atenta e sensivel do artista à cidade e ao próprio palácio que alberga o centro de arte e pesquisa. Nas palavras do curador, “o artista cria (…) um arquivo de imagens, objetos, texturas que dão conta do espaço histórico no qual está situado, o Palácio Pombal. Ao recorrer a este dispositivo classificativo de entreposto, local de conservação e trocas comerciais, Alejandro Somaschini evoca o papel histórico de Portugal, em especial a zona portuária de Lisboa, desde a antiguidade até o processo de colonização dos séculos XV ao XX.” A propósito deste seu extenso trabalho, que ocuparia várias zonas do enorme palácio pombalino, Somaschini assumiria o carácter de amostra do mundo actual, possibilitando assim a descoberta por outros povos, futuros ou alienigenas, do nosso presente; após a “eminente catástrofe que a humanidade viverá”.

Mais uma vez fomos levados numa aventura por espaços e ambientes saídos de vários lugares e tempos; entrando e saíndo sempre de uma máquina invisível e avariada; que por isso mesmo nos mostra coisas que nunca soubémos, ou que já esquecemos…

Em 2011 o artista volta a Portugal. No contexto da 16ª Bienal de Cerveira, expõe na Casa das Artes, em Vigo, Espanha; em Lisboa apresenta uma individual na Galeria Graça Brandão, e mostrará ainda uma instalação na estufa do jardim do Museu da Cidade, laboratório e fonte de algum do trabalho exposto na galeria.

O titulo da colectiva curada por Fátima Lambert em Vigo soa a um desafio certeiro ao estilo de Somaschini – Arqueologia do Detalhe. O artista recuperou a instalação Sal, onde uma bancada com sal marinho recebe pedras e galhos, mel e azulejos antigos, ossos; tudo banhado numa luz negra. A pureza da neve recebe os resquícios nobres da primeira memória…

Na Galeria Graça Brandão o trabalho partirá – mais uma vez – de acontecimentos e períodos da história portuguesa cujo gigantesco simbolismo e importância ajudaram a definir a ideia que hoje se tem de Portugal, país e pátria; e obrigaram a reconstruir de raiz a capital, Lisboa. Por um lado o terramoto que destruíu a cidade em 1755, também as Descobertas, sobretudo a do Brasil, tudo cruzado com actual crise que assola o país e a Europa.

A estufa do museu da cidade funcionará como o laboratório onde se dará, num processo de transmutação alquimica – exercicio simbólico central no trabalho do artista, – a transformação de materiais esquecidos e degradados em peças valiosas através da sua cobertura com folha de ouro. Ao recuperar ossos, objectos velhos, para reinseri-los depois – já valorizados por uma nova pele dourada e pelo estauto de obra – no mercado de arte, trocando-os pelo valor absoluto do dinheiro, grita-se atenção para um passado que foi desprezado em nome da modernidade que agora desaba sobre todos. E responde-se a essa derrocada. Decorrerá na galeria uma acção de venda desses objectos por peça, ou peso – desmistificação irónica mas séria – numa bancada como as que se encontram nos mercados e feiras. Ao momento histórico da chegada de Pedro Álvares Cabral à india juntar-se-ão as notas emitidas 500 anos depois, comemorativas da épica ocasião, e um painel dourado, estendido ao alto como um espelho puro e nú.

Será interessante ver esta complexa leitura e escrita do nosso velho percurso e momento presente; das antigas glórias e actuais derrotas; a sombra pesada de um espírito velho; à luz clara e nova de um olhar saído do Sul. O artista é um explorador de preciosidades do passado que ganham vida em suas mãos e renascem, junto a outras novas em que se transformam, criando completas um caminho luminoso que atravessa o tempo, mostrando-nos a todos de que somos feitos e para onde iremos, seres depois elevados no olhar desse espelho.

Alejandro Somaschini vive em Buenos Aires, cidade onde nasceu em 1977. Trabalha e expõe regularmente também em Lisboa e no Rio de Janeiro, onde é representado pela galeria Progetti. Fotografias de Fernando Piçarra.

Catálogo da Exposição ” Entre o Arquivo e a Arqueologia, o Detalhe Quase Descansa…”

Quase Galeria, de 13 de Outubro a 3 de Dezembro de 2011, Porto, Portugal

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