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Noites Claras (13)

In PROSA on 09/01/2012 at 12:24

A entrevista ou reconhecimento como lhe chamavam, acontecia normalmente numa sala redonda, ampla e luminosa, situada no terceiro piso da torre central do castelo. Havia um recanto mais escuro perto da porta, um cadeirão junto à lareira sempre acesa e uma enorme mesa rectangular ao centro com duas ou três cadeiras sem braços desarrumadas à volta. Numa parede uma estante alta de carvalho velho com garrafas de vários vinhos e copos de vidro grosso, um vaso lascado com rosas de várias cores, ao lado a cabeça de um veado de chifres enormes sai da parede, o olhar de vidro azulado. O chão de largas traves de madeira escura tapado no meio por um enorme tapete vermelho grosso e meio gasto, a lembrar a pele de um bicho antigo, de outra parede uma janela larga rasgava a vista sobre o vale abaixo, as casas, o porto, a baía, um quadro em pastel adormecido.

O salão não era nem acolhedor nem austero e era neste ambiente mais ou menos neutro que os Velhos conheceriam o jovem, cada um deles interpelando-o à sua maneira, numa conversa mais intensa sobre um dado assunto que nunca seria seriamente tratado, observando-o talvez apenas da janela em silêncio para perder de novo o olhar no céu azul, ouvindo-lhe o tom da voz sem cuidar das palavras, ou entrando na sala de surpresa apenas para o cumprimentar e saindo de seguida com uma opinião, talvez pequena mas firme, já tomada. Aconteciam por vezes, dependendo do carácter do entrevistado, momentos de alguma tensão já que este poderia na sua sensibilidade sentir-se atacado por ver que todos os seus movimentos eram estudados, a forma como se virava para olhar alguém que mal entrava e se lhe dirigia com voz firme e grossa, um olhar frio pousado na perna que cruzara ao sentar-se, um instante de silêncio duro ou um forçado brinde a que lhe pediam o tema testando-lhe a atenção a inteligência e a soltura. Deixavam que o ruído do vinho a cair no copo pairasse na sala e escorresse, quietos, numa breve graça solene de que se ririam todos mais tarde.

Havia sempre no entanto uma fluidez neste improviso, uma facilidade no estar ali como se logo à partida o conhecessem mais do que podiam, como se espreitassem nele as coisas mais fundas que o marcavam, como se todos os traços dos homens e mulheres tão diferentes que por ali tinham passado e passariam lhes fossem de imediato familiares e fáceis, como se neles morassem esses mil ecos mudos que os enriqueciam ao ponto de aquilo ser muito mais uma confirmação da certeza tida toda no primeiro olhar e até antes disso, do que para eles uma descoberta ou um teste a esclarecer.

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  1. muito bom reencontrá-lo, obrigada, um abraço*

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