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Barrão – Frankensteins de Louça ou Retalhos da Beleza Maior

In ARTE on 30/01/2012 at 20:00

Na antecâmara do atelier de Barrão pessoas animais e outras coisas esperam, a postura congelada, que um capricho os liberte para a morte, o grande recomeço.

O destino artista reservou-lhes uma existência maior na forma de união com outros corpos. Será a mesma mão que os escolheu dentre muitos a destruir-lhes o corpo, bruta, para depois lhes colar os pedaços a outros; igualmente privilegiados pela escolha.

Tudo aquilo é uma espécie de ante câmara dos horrores, mas sem carne nem sangue – está seca a cerâmica que se esconde debaixo daquelas cores, do brilho fino daquele verniz.

O artista cria então, destruindo e reconquistando depois – numa soma de muitas e diferentes partes – um novo e estranho símbolo, e ser. Podemos ver aqui uma ópera trágica e divina, em três actos.

Acto Primeiro – Barrão escolhe as peças nas lojas, fábricas e mercados por onde passa; um reconhecimento do objecto pela estranheza, pela beleza ou por outra identificação, subtil ou não. Muitas vezes vai às compras numa excursão de caça em busca das suas belas presas – e este safari urbano é um passeio invejável!

Vai garimpando na deriva. Vai passear para ser seduzido. E sequestra depois as coisas ao mundo.

Acto Segundo – Acontece a morte violenta dos escolhidos, o ritual de quebrar, prazer também infantil mas não só. Imaginam-se cacos que voam, formas bicudas, sorrisos no ar. Esta brincadeira séria, acção fria de morte sobre as pequenas coisas sedutoras, rejeição do flirt a que se tinha entregue; é a zona explosiva do processo, o seu ponto alto. A orquestra entra aqui com tudo, a plateia arrepia. Isto corresponde à estocada final da tourada; à maior altura a que chega o foguete no ar; ao orgasmo no amor. Pode-se ver aqui em acção a máxima de que para se construir tem que se destruir primeiro, a lógica da tabula rasa.

De facto aqui o artista, – por detrás do prazer imediato que se imagina, – recusa as formatações existentes; e tendo-se-lhes antes entregue seduzido, assume essa recusa no acto concreto da destruição.

Isto é, claro, uma séria reacção à ordem fabricada das coisas; à formatação da beleza; à ausência de critérios próprios; à predefinição das curvas da própria aventura…

Acto Terceiro – Agora é-se deus a sério! Com a delicadeza e lentidão que a minúncia exige, Barrão reconstrói vida nova a partir da morte, colando pedaços de vários corpos num só corpo, objecto. Na ambição de uma nova totalidade, são aqui fundidos vários pequenos e efémeros amores num único amor; maior, próprio, ambicioso. De jorros invisiveis saiem os novos corpos, multiplicados…

Vê-se aqui o herói, também vilão, no centro do palco, como um joelheiro elegante concentrado na sua tarefa maior, a razão de toda a sua aventura: tentar construir, por repetição de tentativas, o corpo-ser perfeito: Aquele que, saído das suas mãos e da vontade do seu espírito, – recuperação somada do melhor que os pequenos amores fugazes deixaram – reúna toda as potencias possiveis; fazendo depois, da vida, uma história de facto superior. Talvez agora um violino gema solitário, o solo delicado de uma força maior, a ponta de um iceberg afectivo.

Há aqui uma revelação dramática escondida no epílogo: Todas as peças serão devolvidas ao mundo! Sendo esse o objectivo primário de toda a acção – entregar a outros o resultado final da aventura – podería falar-se de generosidade, se não fosse a ambição pessoal do artista o principal leitmotif. Claro que esta ambição jamais será satisfeita, aliás, o âmago da questão está precisamente na insatisfação e procura contínua, utópica afinal. Deve-se lembrar Beckett: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.”

O cadáver esquisito que é esta obra de arte importante, uma explêndida metáfora, é algo cruel mas honesta!: mataremos o mais belo que conseguirmos roubar ao mundo e dessas partes construiremos as pegadas cheias que iremos deixando – testemunhos da nossa existência – à vista de todos.

O Eros e o Thanatos são aqui experimentados e assumidos no seu explendor maior, fugaz mas intenso. Entre eles vive, ligando-os, uma alternância em espiral que tende ao infinito, sempre…

Se a estranha beleza de algumas obras seduz, estas mantêm um potente simbolismo que ultrapassa qualquer atracção meramente estética. Será assim previlegiado quem possuir um tão profundo testemunho circunstancial do percurso de vida e criação do artista.

Barrão é representado pelas galerias Fortes Vilaça em São Paulo,

e Laura Marsiaj no Rio de Janeiro.

Fotografias cortesia do artista.

Jorge Emanuel Espinho

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