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António Dias – Zeitgeist, Arte e Liberdade, A Vida Maior

In ARTE on 10/08/2012 at 16:58

Algumas (raras) vidas abrem preciosos caminhos entre as águas calmas do quotidiano normal; caminhos profundos que depois se alargam revelando lugares cheios de jóias, importantes e reveladoras jóias; como direcções novas que partem intemporais do agora, apontando firmes e abertas possibilidades para uma vivência maior, em tudo mais livre e actuante, pensante e preenchida. Estes percursos de excepção, generosos na entrega e  estruturantes na partilha, são rios finos que se fazem largos mares numa abrangência intensa e fenomenal pelas pessoas do mundo.

Viver a Vida na Arte e desta partir sempre num contínuo recomeço coerente com o Melhor como objectivo é terreno habitado por poucos; mas respirado, depois, por tantos muitos…

António Dias nasceu na Paraíba em 1944. Tendo na infância vivido em várias cidades, lembra-se de uma casa sem imagens, nem sequer religiosas, apenas um barquinho de madeira feito pelo avô, emigrante português de Fafe, homem de cultura vasta e “muito importante”  na vida do artista. Ao vêr o neto desenhar, o velho aconselhava: “Quando tem que colorir não faça esse colorido todo “plat”…” Do gramofone saía sempre e só musica clássica, que “como ninguém me explicava nada, associava a momentos de terror”, conta o artista. Sempre gostou de musica popular. Aos 10 ou 11 anos descobriu um programa de musica árabe numa rádio da sua cidade, “fiquei enlouquecido por essa musica”. Numa casa sem imagens mas com muita musica e muitas palavras, “Esse avô foi o caminho para o desenho, e também para a literatura, que a casa tinha uma boa biblioteca…”

António muda-se para o Rio de Janeiro aos 12 anos de idade, começando a morar sózinho aos 16 – num já vi tudo, espaço pequeno que funciona também como atelier, inaugurando uma tradição para a vida – trabalha como ilustrador e designer e faz já os seus primeiros trabalhos artísticos. Cedo revela uma consciência politica aliada a um espírito crítico e criativo muito raros para a sua idade, proeza que atribui às “más companhias” que frequentava, amigos mais velhos do que ele, pois os da sua idade “não pensavam nada”. Vive em Botafogo, em Santa Tereza, em Copacabana…Realiza a sua primeira individual aos 18 anos, em 1962, no Rio, apresentando pinturas que nas suas palavras  mostram “Uma arte abstrata, com formas e símbolos principalmente tirados da cultura indígena.” Pinta, desenha, constrói, ilustra. Acompanha a música popular brasileira quase todas as noites nos botecos boémios da cidade, com um “bando de malucos”, companheiros de estrada como Carlos Vergara, com quem foi construindo uma rede de relações que surgiu expontaneamente, da “necessidade de abrir caminho”. Na arte como na vida…

Nota Sobre a Morte Imprevista, 1965, 195x176cm.

Sobretudo depois da revolução militar de 1964, António trabalha numa “liberdade poética que sempre foi mais importante do que aquela coisa panfletária em si”, como afirma. Vai construindo um corpo de trabalho que espelha forte pensamento/acção/reacção ao pardacento e opressor estado das coisas, vai revelando uma energia e consciência de facto poéticas mas também actuantes, como na obra Nota Sobre a Morte Imprevista, de 1965; peça de sentido intemporal, crescente, actual.

É nesse ano que participa na importante colectiva Opinião 65 no Museu de Arte Moderna do Rio, mostra inspirada pela acção do Grupo Opinião – formado logo após o golpe militar de 1964 por artistas do teatro ligados ao Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes, entretanto tornado ilegal pela ditadura – e que cedo contaminou outras áreas de acção e criação artísticas. O poeta e critico Ferreira Gullar escreveria: “Algo de novo se passa no domínio das artes plásticas, e esse carácter novo se pronuncia no próprio título da mostra: os pintores voltaram a opinar! Isso é fundamental!”. Idealizada por Jean Borghici e Ceres Franco, a mostra apresenta trabalhos de artistas europeus e brasileiros, marcando uma “ruptura com a arte do passado e com uma estética cómoda, em referência à pintura abstrata”, refere Franco no catálogo. Catalizadora, a exposição abre caminho para várias outras iniciativas e acontecimentos de contestação ao regime; exposições, debates, performances… A onda ganha vida, e cresce!…

Depois de receber o Prémio de Pintura da Bienal de Paris de 1965, Dias realiza a sua primeira individual de pintura na Europa, na mesma cidade. Entretanto a situação no Brasil torna-se-lhe insustentável. No ano seguinte participa na Opinião 66 no MAM do Rio e parte para Paris com uma bolsa de seis meses do governo francês. Ficaria dois anos, até Maio de 68. Mora no Quartier Latin, no “centro da batalha” em que “tinha que participar, pois a situação era bastante pesada…”. O seu trabalho assume uma vertente mais conceptual, mantendo afinadas a consciência social e politica, sempre presentes e muito importantes no seu percurso. Obras como Opressor/Oprimido, desse ano, deixam poucas dúvidas sobre a visão crítica e ambiciosa do artista em relação ao estado das coisas e a uma forte necessidade de mudança…

Mas a vivência em Paris ficaria aquém das suas maiores espectativas: “O que foi mais importante em 68 foi criar uma distância minha daquilo que eu idealizava que fosse a experiência lá. Comecei a ver de uma maneira muito crítica a minha participação, as exposições, os meus contactos, tudo. E nesse sentido eu me sentia por um lado um pouco isolado, mas por outro muito confiante nas experiências que nós tínhamos tido aqui no Brasil anteriormente. A Opinião 65, a Opinião 66, o contacto com o trabalho de Hélio Oiticica, Ligia Clark e outros colegas daqui…” Da idealização projectada de uma sociedade diferente, à realidade que se vivia de facto – a distância impunha-se: “Havia coisas que para mim pareciam… olhar em volta e dizer: Mas vocês não têm artistas mulheres?! Na altura tinha uma amiga portuguesa, Lurdes de Castro, uma das poucas mulheres artistas que rodavam por ali…”

Bem diferente foi a chegada a Milão, onde se instala ainda em 68. “Antes das primeiras exposições de arte povera, embora já se falasse disso, eu encontrei um clima tão experimental como o que nós tinhamos aqui (no Rio)”. É então ali que o artista reconhece um lugar e uma energia mais de acordo com as suas preocupações e prioridades criativas, ao “Encontrar gente que não estivesse simplesmente alterando os estilos, reciclando problemas mais antigos, até velhinhos mesmo… como sentia que acontecia em Paris.”

Anywhere is My land, 1969, 130x195cm.

É já na Itália que produz Anywhere is My Land, uma das suas obras mais reconhecidas. Deixa visionária, enigmática e afirmativa, encontramos aqui não só o que viria a revelar-se um statement abrangente para a sua vida; mas a exigência responsável e ambiciosa da acção do homem/artista no Mundo. Associada à consciência da condição de liberdade inerente ao plano mais elevado da vida, parece pulsar aqui latente uma responsabilidade – que fazer com essa acção? Onde agir, o que transformar? Com o cosmos quadriculado como pano de fundo, a afirmação/pergunta parece revestir-se de importância capital: sendo o meu lugar qualquer lugar, para onde ir? A viagem/processo no centro da acção, o sujeito liberto, menos de si próprio…

Sempre baseado em Milão, António vive numa comuna partisan nos arredores da cidade, frequenta o restaurante do Partido Comunista local, faz amigos e cria relações, avança sempre no seu trabalho; e em 1969 inaugura a sua primeira individual, regressado à pintura, na galeria Studio Marconi. Frequenta vários ateliers e artistas italianos e participa em várias colectivas importantes por toda a Itália, mas também no estrangeiro.

Opressor/Oprimido, 1969, 8x32x32cm.

É em 1971 que faz parte com Bruce Nauman, entre outros, da 6th International Exhibition do Museu Guggenheim de Nova York. Edita o disco Record: The Space Between, apresentado na mostra Record as Art Work do Royal College of Art, em Londres. Lado A – A Teoria do Contar, Lado B – A Teoria da Densidade. A Propósito dessa obra o artista lembra:  “O que é a escultura?! O que é o realismo ?!” De um lado do disco o bater de um relógio, de três em três segundos; do outro lado o som do respirar, também de três em três segundos… “O disco espelhava uma condição humana, que eu tinha percebido e que queria transpor.”

Mais uma vez parece haver algo de muito importante para além de todas as fronteiras…

Record: The Space Between, 1971, 24 min.

Com uma bolsa da Fundação Guggenheim vive em Nova York em 1972. Sobre essa época dirá hoje: “Apesar de haver um lado experimental havia um ambiente profissional muito agressivo e pouco colaborador, sobretudo em relação a quem, para além de ser sul americano, vivia na Europa… Uma espécie de ser estranho!”

É nesta década que realiza uma série de trabalhos, A Ilustração da Arte, em que usando diversos meios como video, livro, fotografia, gravura ou pintura, questiona o acto de criar, de produzir, de vender e consumir a obra de arte. Apresenta o que parecem – devolvendo sempre ao espectador a gestão interpretativa do sentido – pertinentes apontamentos para a vida, muitas vezes irónicos e subtis; sobre a memória e o corpo, a política e a poesia, o olhar e a palavra, o ser e o ter, o estar e o agir, o criar…

Poeta/Pornógrafo, 1973, néon.

Com um rigor formal e um minimalismo aguçado, conceptual, são desta época trabalhos como Hands (1975) ou Poeta/Pornógrafo (1973), sedutoras e belas ironias cheias de humor e significado, que – como acontece com todo o seu extenso corpo de trabalho – mantêm a sua força aberta e actuante nos dias de hoje, ganhando sempre mais e maiores sentidos.

Aos 33 anos de idade, em 1977, parte para a India e Nepal. Trabalha com tibetanos nas técnicas de produção artesanal de papel: “Com eles eu aprendi a colorir, com materiais simples, com chá, diferentes plantas. E eu acrescentava outro tanto de maluquice, tipo carvão! Que flutua na água e é um inferno para se controlar para onde ele vai!” É aqui que imprime o album de xilogravuras Trama, concebido em Milão em 68. Mas haveria outros frutos bem importantes a colher dessa experiência: “O resultado foi um trabalho muito satisfatório para mim. Uma espécie de libertação  também daquele lado muito rígido, do conceptual onde eu mesmo me havia inventado uma jaula, onde não podia errar um milimetro daqui ali. Esse foi um momento de grande libertação, muito importante, libertou outro tipo de poética…“

Ainda no final da década de 70, Dias regressa ao Brasil, e é como professor convidado da Universidade Federal da Paraíba que cria o Núcleo de Arte Contemporânea em João Pessoa, com Paulo Sérgio Duarte. Com uma natureza assumidamente experimental e contemporânea, por aquele grupo de trabalho – dedicado a divulgar arte nacional e internacional naquele estado brasileiro – passariam muitos nomes que se tornariam de relevo, como Cildo Meireles, Anna Maria Maiolino, Tunga ou Valtércio Caldas. Publica o livro Política: ele não acha mais graça no público das próprias graças.

Retorna a Milão em 1980. Produz uma individual em Munique, paticipa na Bienal de Veneza. Três anos depois a crítica de arte francesa Catherine Millet escreveria: “Não há obra mais relativa que a de António Dias.” Na década de 80 realiza vários trabalhos com grafite, malaquita, óxido de ferro, pigmentos metálicos; nuances de cinza e negro em grandes dimensões como God Dog  (1986) ou Entre a Fábrica e o Machado (1987). Obras que, apesar de também explorarem a simetria e a dualidade, parecem carregar um forte peso orgânico – sempre com a acidez crítica tão cara ao artista, mas talvez com uma nova carga, um novo peso, um novo sentimento de perda ou desencanto, de ausência, de fim…Ao longo dessa década António Dias apresenta várias exposições, colectivas e individuais, no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Berlim, no MOMA de Nova York, em Taiwan… Vive em Berlim, em Colónia, em Milão – onde mantém sempre o atelier.

É nos anos 90 que é convidado a dar aulas. Em Salzburgo, na Áustria, e depois na Alemanha em Karlsruhe. Sobre a experiência enquanto professor Dias refere: “O ensino da arte é complicado, você forma melhor uma pessoa que trabalha com você (no atelier), onde a escolha é mútua. Quando trabalha vai dizendo coisas… do ambiente, da técnica, das atitudes… Desse ponto de vista quem passou pelo atelier deu-se bem, viveu mais.” De entre as várias exposições em que participou nos anos 90 destacamos uma no Rio, em 94. A propósito das pinturas Brazilian Painting/Bosnia´s Jungle, António refere: “Comecei utilizando a ampliação de um detalhe da pele de uma onça. Óbvio que é a primeira parte de um pattern (as manchas da pele) que encobre, mimetiza, mascara o que é ali praticado (a arte). Pensei na situação da Bósnia, onde um pattern de atrocidades encobre o interesse dos mercadores de armas. Da camuflagem artistica ao camaleão político.” Mais uma vez o artista parte da arte para tocar no politico, no social, na estreita condição do homem quando relegado para mero peão de jogos alheios… Na fundação Calouste Gulbenkian, em 99, acontece a exposição Antologia 1965-99, curada por Jorge Molder e Paulo Herkenhoff.

As Virgens de Colónia, 1999.

Ao longo dos anos 90 e 2000, na série Autonomias e em muitos outros trabalhos, repete-se o ouro, a folha de cobre, a malaquita, o óxido de ferro… Efeitos profundos a lembrar o tempo que transforma, longo; o vermelho sempre o vermelho que o acompanha sempre, padrões iguais a buracos do desgaste a furar o falso luxo; painéis sobrepostos e alternados como fortes tensões desencontradas mas unidas, juntas; verdes de água seca e dourados velhos de brilho fundo, teimosos e orgulhosos, mais verticais uns e deitados quase caídos outros, vencedores e vencidos; realizados e perdidos, cruzes, belas cruzes falsas, ostras velhas naquela Retina; a vermelha pupila, falos frágeis de vidro, pendurados e preenchidos falos, falsos como o que sobra do tempo passado…

Autonomias, 2000, 120x150cm.

Ao conterem em si um importante diagnóstico sumário da condição estreita de que partem, os objectos de Arte de António Dias, plenos de carga política e poética, condensam em si três espécies de acção: O resumo crítico de um presente;o sumário/chave para uma revolução ambiciosa e transformadora na relação com esse presente; o vislumbre/esgar de um futuro maior, possivel a posteriori. Parece ser assim com a obra Satélites, de 2002. Simultaneamente diagnósticos de uma estagnação; apelo urgente para uma elevação de posições; e anúncio claro da possibilidade ainda concentrada de partida para novos horizontes…

Satélites, 2002.

Mestre da politização do objecto, criador último dos simbolos de uma diagnose transversal, universal, António Dias foi oferecendo ao longo da sua vida  – através da sua poética particular – pistas e soluções para o mistério da mudança, em cada momento, em cada lugar, a cada um. E trabalha ainda, e sempre, Hoje, artesão elegante de uma beleza culminante, enriquecedora e provocante.

Fornalha, 2006, 120x240cm.

Sem Titulo, 2007, 90x270cm.

Sem Titulo, 2008, 120x240cm.

Umbigo, edição 10º Aniversário

Jorge Emanuel Espinho

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