.

Sandra Cinto – A Filosofia da Linha – Pormenor, Repetição, Relação

In ARTE on 24/09/2012 at 14:03

A obsessão é a mais ambiciosa das entregas na relação, e a mais larga também das exigências. Uma exigência exclusiva de perfeição e intensidade absolutas, uma procura doentia de entrega total e dedicação, uma cobiça maior a anular todo o resto – bem sobreposta que se coloca a tudo essa expandida relação.

Como uma emoção excessiva e permanente, invasora e superlativa, esta ideia fixa e compulsiva – de direcção constante mas crescente – procura sem nunca alcançar a plenitude de uma compreensão; o dominador entendimento de um outro, a mais profunda penetração e conexão, o maior insight. É dominando através da ânsia de dominar – incontrolável, crescente, absurda – que esta emergência permanente se amplifica e contamina. Transformando assim uma visão/relação particular numa procura louca e incessante de mais, de maior, de melhor. Uma lenta corrida total, sem meta nem final.

untitled, 2010, 320cm x 250cm x 4cm

Encontramos na obra de Sandra Cinto uma abordagem criativa e metódica profunda e absoluta, com este altíssimo grau de entrega e exigência. Tanto no objecto tratado, claramente definido – o encontro das ondas do mar, o céu estrelado e escuro, a selvagem natureza das águas, a tempestade contínua que sabe a metáfora clara de uma interioridade vulcânica – quanto no processo de trabalho: os milhões de linhas que vão edificando lentamente aquelas vagas, aquela espuma, alimentando aquele encontro constante; e construindo um espaço, que é feito das pequenas particulas ínfimas do traço, que vai inventando e fazendo esse todo imenso. A escrupulosa dedicação minuciosa a um gigante que se ergue devagar…
A linha é nesta obra o fio condutor por onde avança e circula esta sempre crescente relação/narração, mas também a materialização no espaço – que vai criando e compondo – do próprio tema que é o alvo dessa criação. A linha corporiza e veicula a relação entre a artista e o seu assunto, dando também corpo a esse objecto, e com ele decidindo e construindo o lugar onde acontece esta estreita e explosiva relação. Na linha pulsa e flui esta convivência em tom de permanente descoberta; da linha se faz o corpo crescente e vivo do tema; é a linha que define o alto território onde tudo se dá e acontece. Como refere Sandra Cinto a propósito de um trabalho recente: “Para mim cada pequeno ponto, pequena marca, pequena linha, é
importante… Uma espécie de filosofia, pensar que cada pequeno detalhe, pequena ação, pode mudar tudo…”

A escrupulosa dedicação minuciosa a um gigante que se ergue devagar…

É desta relação de intimidade fértil entre a artista e o traço que tudo vem, germinando nas horas de entrega solitária, erguendo-se no lento aprofundar de uma densa familiaridade. Olhamos aqui o oceano inventado saído de uma convivência funda que se levanta e expande, avançando sempre, saído e criado que está nessa interioridade relacional.

Se por um lado o tema se mantém constante, a relação com ele vai-se gerando e desenvolvendo em movimento, noutros espaços, noutros momentos, noutros tempos. Esta zona de intersecção mutável entre a artista e o seu interlocutor exclusivo caminha e cresce continuamente; num ritmo próprio e autónomo, independente das partes que o alimentam. Pode-se dizer que aqui o terceiro elemento – a relação, a obra, a arte – se manifesta como uma conversa livre que se vai indefinindo à medida que acontece, que se cria, que se espraia. Parece haver sempre e ainda muito por percorrer, por surgir, por desenhar. Como numa obsessão livre – sempre solta e ambiciosa – encontramos aqui, e manifestado até na alta escala de algumas obras, um corpo de trabalho quase anárquico na sua transbordante e insolúvel fertilidade coerente; na sua natureza selvagem, irresolúvel, explosiva.

Mas ao contrário de algumas outras relações também íntimas e intensas mas bem mais fechadas, neste seu processo particular a artista integra ainda outros sujeitos na acção, para além dos espectadores. Colaboradores que com ela regularmente vão também dando corpo à tarefa, e até voluntários, como aconteceu num recente mural feito para o Museu de Arte de Seattle. Esta postura de abertura e partilha acentua não só o carácter universal da sua obra – que parece apontar para a interioridade e o inconsciente simbolizados pelas águas como os planos onde se joga e acontece o verdadeiro pulsar e questionar primordial da vida – como revela uma generosa oportunidade que nos é oferecida de participar numa relação que importa a todos entender, sentir, trabalhar. Fazer nossa também.

Pôr o espectador dentro da água… nas palavras da artista…

Ao entrar na acção aparentemente estéril, mecânica e repetitiva que a linha impõe, somos convidados a entender, também criando, esta filosofia do pormenor; numa imitação que vai reproduzindo lentamente a enorme interioridade abstrata de que trata toda esta exteriorização minuciosa.

Parece ser de facto sobre a intersecção obssessiva e incontornável do homem com o seu mundo interior – o seu inconsciente profundo, o seu lado mais eruptivo e imprevisivel mas condicionante e estrutural, o espaço do não orgânico – que trata este corpo de trabalho inteiro. A própria água parece materializar essa obsessão circular – sem limite ou fronteira – que surge em obras que querem continuar ao infinito; discorrendo sobre a urgência do olhar ao âmago ardente do que somos; ao pulsante inconsciente sobre o qual sempre agimos, pensamos, decidimos. Se por um lado é notória aqui a magnitude imensa e o poder incontrolável que o sentimento involuntário sobre nós exerce; igualmente se sublinha a obrigatoriedade da nossa relação com ele; clamando-se pela urgência permanente dessa descoberta em relação.

Longe da fechada rigidez cristalizada de outras fixações obssessivas, o trabalho de Sandra Cinto abre-se para nós na sua livre e solta coerência – partilhando-se, envolvendo-nos – tratando connosco de avançar na narrativa ampla que vai fazendo de uma convivência íntima mas universal, única mas total. Discorrendo e alargando-se sempre, esta obra vai dando forma à nossa relação com o inalcançável e invisivel inconsciente aquático, que mora altivo e solitário na natureza mais profunda do homem.

Revista Amarello nº 9, São Paulo,

Setembro 2012

Jorge Emanuel Espinho

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: