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O Amor de Luiz Zerbini – Tropical Total ou Intuição, Sensação, Iluminação, Carácter

In ARTE on 04/02/2013 at 17:59

No Tropical tudo está sempre ligado e quente, tudo se toca e se acrescenta, tudo cresce e se ilumina, vivo, espesso, sensual, colorido. O Tropical é a inveja do mundo porque ali mora a verdadeira intensidade – mesmo quando subtil -, a que exige abertura e atenção disponível, a que recompensa com paixão calma, segurança alargada, alegria. Na luxúria embriagante do trópico habita a sincronia confusa mas reveladora do meio – não divisor mas unificador -, ponto de encontro dos extremos em fusão enriquecida, total e sobreaquecida, exagerada, das sensações que iluminam e alimentam o mundo. Viver nesta realidade que é um permanente e complexo tesouro descoberto, só se faz sério com despojamento e liberdade nas sensações, abertura e leveza no sentimento, ambição e segurança nas emoções. Para colher desta real e cravejada multiplicidade preciosa é necessário a alma calma de um garimpeiro louco, no corpo perdido de um marinheiro. A profícua deriva da vida, o Amor. Luiz Zerbini nasceu em São Paulo em 59. Adolescente, experimentava insights ao passear aos domingos pela cidade vazia, entrando numa rua e sentindo como a luz se transformava em escuro, o ruído das cores no ar, o silêncio, os raios do sol a descer, a terra mais fria naquela enorme sombra, a imponência vertical dos prédios, a tontura, embriagado nessa visão tudo lhe dava a entender de repente a natureza verdadeira das coisas, tudo lhe tocava, e acordava nessa dormência, clarividente e sensível, inundado na emoção, pensava na nuance da côr, no efeito da luz, transcendia-se assim, de corpo inteiro, via-se iluminado nesse estado. E aberto, solto, entendia. O seu professor de pintura Van Acker, atribuiu essas experiências ao facto de ele ser, afinal, um artista. Zerbini ficou surpreso, mas acreditou.

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Brasilia, 2011.

Esta vivência e aprendizagem sensacionista e contínua da vida, que se traduz numa disponibilidade e atenção crescente ao pormenor mas também ao óbvio  – pois em tudo mora o significativo, o magnífico -, alimentou a sua relação com a pintura, e é também profundamente alimentada por ela. Essa circularidade mágica é assumida e sublinhada pelo artista. Nasce da privilegiada naturalidade dos que reconhecem na exterioridade a multiplicidade significativa da vida verdadeira, quando reconhecida e transformada pelo crivo sensivel e único de cada um. A arte de Zerbini é uma imersão reconstruída da experiência exótica de estar vivo, deslumbramento constante de reconhecimento e identificação, testemunho do generoso percurso a que a vida nos autoriza, assim estejamos livres e receptivos, abertos e sinceros, autênticos num lugar nosso, que será sempre de passagem e relação.

Importa saber reconhecer a verdade que habita no caos do acaso, pairar o olhar como um pincel a ver melhor, escolher as cores profundas que melhor iluminam. É nesse significativo processo que o artista se alimenta, e que vai devolvendo depois – enriquecidos e aumentados ele e a experiência – ao mundo, a nós, a súmula pertinente desse cíclico percurso, feito pertinente paisagem. Mais do que implícita nesta estrutura activa de vida está a desmistificação da hierarquia das coisas, dos fenómenos, das pessoas. A contribuição é total, livre, autónoma.

Quando propôs ao editor Charles Cosac o livro Rasura – transbordante documento que demoraria 10 anos a completar, e representa uma súmula possível do imaginário e do método do artista, preenchido de referências, imagens, obras, palavras e esboços, seus e de outros  – e lhe transmitiu a vontade de explorar nele a verdade do seu universo criativo, suas influências, seu processo, seu caminhar, a pergunta veio certeira: “E você não tem medo?” ao que respondeu “Sim, mas isso não é razão para não fazer!” Esta honestidade e seriedade são raras e desconcertantes, e o resultado foi um fabuloso e generoso testemunho da complexa mas livre teia que representa o mundo particular do artista.

A primeira imagem desse livro configura uma importante revelação sobre a relação de Zerbini com a arte e o tempo: num enorme espaço expositivo dezenas de pinturas de todas as épocas e estilos encontram-se espalhadas, paralelas mas em vários graus de distância e proximidade, de frente para o visitante. Apetece percorrer os espaços entre aquelas pinturas saídas de vários tempos, de vários lugares, de várias idades, mergulhar naquele mar onde tudo conversa, tudo se relaciona, tudo faz parte. É assim, diz Zerbini, “que entendo a história da arte, sem essa coisa do tempo. É tudo sincronizado!” É impossível não relembrar aqui os insights do artista, por ele descritos como “Um bombardeamento de informações simultâneas, uma avalanche de sensibilidade”.

ScreenShot012

Um dos mais nobres estandartes do regresso à pintura nas artes plásticas brasileiras, Zerbini não se fica por essa expressão, que domina e exibe como poucos. Membro do colectivo sónico e sonoro Chelpa Ferro, Zerbini foi actor, cenógrafo, faz instalações e colagens, escultura, ilustração, escreve, e vai construindo uma obra que é uma paisagem única que se intersecciona, feita de vasos comunicantes interligados, pelo fluxo de que são feitos. Plena, luxuriosa, viva. O ser tropical manifesta-se assim naturalmente numa profusão de meios, sempre atento e reflexivo, generoso e profundo na sua aportação à vida, matéria prima total de que bebe e que alimenta, transformador e sensorial, livre e consciente, lúdico, criativo, intenso.

No MAM do Rio, Zerbini apresenta agora a fabulosa exposição Amor, e apresenta-se nela, inteiro. Divide-se em três partes essa mostra, geografia impossível de um mapa simbólico, total. Uma parte ocupa três paredes que parecem abraçar o visitante: luxuriosas pinturas de vários metros quadrados que são uma janela enorme e complexa com vista para tudo, súmula pejada de signos e símbolos que mergulham na natureza e saiem dela, a tecnologia, a luz e a côr, o urbano, o impressionante universo pictórico de uma mão que inventa a reproduzir a experiência única do viver, e a natureza. Neste conjunto se encontra High Definition, selva viva de 2,5m por 4m que demorou um ano a pintar todos os dias; acompanhada de outras paisagens e ambientes, todos intensos, todos rigorosos, todos admiravelmente profundos, completos, sedutores. À esquerda, caveiras – símbolo várias vezes revisitado por Zerbini – seguram do chão as obras, qual contrapeso absoluto, lembrança do efémero, homenagem poética ao humano sentir e pensar da vida.

Luiz-Zerbini.-High-Definition-blog

High Definition, 2010

Na parede oposta outro tipo de trabalho: slides antigos colados formam pequenos painéis, criam jogos de côr, pequenas imagens desconhecidas mas familiares sugerem memórias, talvez inventadas talvez distantes; surgem ironias de familiaridade, as viagens, a praia, o prazer; a descoberta, a infância, a arte, a moral… Este jogo lúdico, para o artista também zona de descanso da pintura, talvez assinale a importância difusa da memória – subjectiva e abrangente, importante mesmo quando oriunda da vivência dos outros – enquanto espaço móvel a que regressamos, visitantes curiosos e sedentos, saídos da oblivion particular que sempre nos acompanha, crescente.

Mas é no centro da enorme sala que se parece jogar o meio – do latim medium -, o esparso eixo, o espaço vivo tropical que é origem e destino, fonte e produto, fim em princípio, essência e forma; o país particular do artista em que as relações infinitas de distante proximidade e de próxima distância se alimentam, mudam, mutam; o âmago íntimo e aqui partilhado que o criativo habita e transforma; a ponte múltipla que o alimenta e dispara, em todas as direcções, como uma esponja ensopada e sedenta, bebendo sempre.

À maneira de uma mesa de estudo naturista – tradição formal com ecos na obra e postura de Zerbini – uma enorme bancada acolhe inúmeros objectos, plantas, insectos, troncos e folhas, areia, superfícies de reflexão e côr, frascos de vidro e imagens, tudo ali, o gabinete possível de vivência do artista, uma cama/casa completa onde aos sonhos se sucedem os dias e ao deslumbramento a relação. Em misterioso entrelaçado entre horizonte e vertical, côr e conteúdo, sensação e olhar, carne e conceito, eis o precioso Planeta Zerbini. A descobrir!

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Mais uma vez aqui impressiona a profusão delicada mas explosiva de referências e relações, e a coragem com que esse caldo produtivo é revelado; a simplicidade disponível do artista, consciente e afirmativo das misteriosas e profícuas relações com que o acaso tempera a criação e a vida e alimenta o ser e o sentir, o estar, o pensamento. Mais do que acolhimento, nesta mostra sentimos a envolvência desejosa de ficar e mergulhar devagar, nessa multiplicidade tropical e quente de um olhar e sentir o mundo, despidos nesse movimento, alcançando o que só de fora preenche, o natural ocupando o particular, a exuberância plástica da selva também interior, tradução poética que a arte faz, da misteriosa rede das coisas e dos acasos da vida.

20110830085732-MW4524_Mamangu_-RecifeMamanguà Recife, 2011

Mas quatro passos parecem querer se definir como a tal tragetória circular importante na vida e obra de Zerbini:

1º – A Intuição. O guia e o impulso na deriva, a ambição e a soltura no olhar, leve e selectivo, cuidadoso, delicado.

2º – A Sensação. Descoberta e reconhecimento do fenómeno, o calor do encontro, a experiência, a relação.

3º – A Iluminação. A integração do mundo, a corporização, a consciência, o excesso e o crescimento.

4º – O Caráter. A essência condicionante e transformadora de tudo, a nova forma de ser e de estar, sempre em mutação, o enriquecimento fertilizador e estruturante.

Estes quatro degraus formarão assim uma escada única em espiral infinita, cíclica e sempre activa, pulsante e abrangente, uma filosofia criadora feita acção, vida e relação. Talvez seja esta ambiciosa e orgânica forma de ser e de estar, este caráter, a maior contribuição de Zerbini, pintor poeta que nos entrega nessa estrutura, uma elevada mas acessivel versão completa a ser vivida, do tal ser maior tropical.

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não é sobre o que se está vendo

é sobre o que se está ouvindo quando se está vendo

não é só sobre o que se está ouvindo quando se está vendo

é sobre o que se está sentindo quando se está ouvindo o que se está vendo

não é só sobre  o que se está sentindo quando se está ouvindo o que se está vendo

é sobre o que se pensa quando se está sentindo o que se está ouvindo quando se está vendo

não é o que se pensa quando se está sentindo o que se está ouvindo quando se está vendo

não é o que se está sentindo quando se está ouvindo o que se está vendo

não é o que se está ouvindo quando se está vendo

é só o que se vê

Luiz Zerbini

Catálogo Electrónico Exposição Amor: http://www.automatica.art.br/livros/catalogo_zerbini.pdf

Jorge Emanuel Espinho

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