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Visões do Desterro – Geografias de um Sonhar Impossivel

In ARTE on 16/10/2013 at 18:36

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Visões do Desterro, Geografias de um Sonhar Impossível

É intrínseca parte da acção do homem no mundo a sua ânsia de ir mais além, uma sede permanente de estar noutro lugar, a irresistível vontade de se transcender, de partir a descobrir, de se reinventar e reconstruir em permanência. Pode mesmo dizer-se que não fosse por esta inevitável e constante curiosidade e ambição, estaríamos ainda, e sempre, amarrados a uma condição primária de seres eminentemente naturais. E bem longe dos actuais paradigmas de imersão tecnológica, científica e urbana, que afastaram definitivamente a imensa maioria de nós da natureza, do simples, de uma relação mais horizontal e comedida com a vida e com o mundo.

Ao contrário, o lugar que ocupamos no presente é constantemente relegado e ignorado, em prol das projecções contínuas que vamos fazendo permanentemente. Quais fantoches tristes como escravos, subjugados pelos sonhos e desejos infinitos que os controlam e restringem. Este perigoso mecanismo que nutrimos e nos domina, transforma em desterro o lugar do agora. E apenas o sonho constante de outro mais pleno e novo encontro/descoberta, parece conseguir alimentar essa ideia de plenitude, satisfação, felicidade. E assim vivemos, enjaulados nesse persistente projectar psicológico, ritualizado e vicioso, de uma partida contínua; imaginária e escapista, delirante. Sempre rumo a essa metafórica, falsa, crucial viagem. Eis então, afinal, um mais que triste apanágio do nosso involuntário sonhar: uma redução estruturante, carente, – nascente circular fechada e activa -, do estar vivo.

O próprio Sonho é, portanto, indicador da condição de Desterro. Pois apenas de um lugar de percebida pobreza e aprisionamento, – e independentemente das reais condições em que vivamos -, se torna possivel e mesmo imprescindível a criação de outra realidade concreta, outra paisagem, outro ser, outra vida. E é assim que surge a Viagem: enquanto meio/caminho para alcançar essa plena condição sonhada; através de um também imaginado Encontro com essa condição/essência maior. Este outro estado é no fundo apenas a projecção desejada, numa aparentemente praticável realidade, de outro mundo. Agora, mais de acordo com o que nos é, e será, – para sempre, – apenas em sonhos revelado.

E chegados a esse novo lugar/estado, descobriremos, num misto de fascínio e desencanto, que também ele se nos revela em claro desterro. Pois a faminta qualidade ansiosa e sonhadora que nos é inerente, nunca se suspende, nunca pára, nunca se apazígua.

Assim, e no contexto do Ano Portugal Brasil, a curadoria entendeu desde logo transcender meras razões de natureza histórica e geográfica; assumindo antes uma orientação de natureza poética e difusa, incerta e fantástica, no tratamento desta temática de deslocamento, procura, projecção, desejo. Interessou-nos aqui, – mais do que circunstâncias de ordem da relação entre dois países tão próximos quanto afastados -, esboçar em poética aberta momentos possiveis de uma inescapável condição de insatisfação, desejo, suspensão, encontro, desencanto. A circularidade infinita e obrigatória deste percurso, decorrente da própria natureza humana, é pontuada então por estes quatro passos de um ilimitado caminhar, – circunscrito apenas à própria busca de maior significado e alcance, – que a todos caracteriza: Sonho, Viagem, Encontro, Desterro.

Então, e assim já vagamente identificado este desterro, – enquanto lugar subjectivo e primordialmente interior -, poderemos apenas pretender vislumbrar dele algumas visões prováveis, que vão surgindo aqui bem ao longe: como gotículas ínfimas mal definidas ao cego olhar, e que escorrem, lentas, entre milhões e milhões de outras inventadas mas possíveis, nos sulcos avermelhados e profundos da grossa pele-espelho, que separa apenas um homem solitário, de toda a outra enorme humanidade.

Sonho

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É enquanto fenómeno de alternativa realização, – surgido a partir de um espaço de insatisfação e desencontro, de limitação e incompletude, – que o Sonho se manifesta e se impõe autônomo, embriagante e pleno, num acontecimento total: uma dimensão paralela nascida das inescrutáveis mas fundamentais sementes de um outro desejo, maior, que para sempre nos acompanha. Adormecido, ambicioso, latente, subversivo.

Neste primeiro passo de um circular percurso que nos espera em repetição, esgueiramo-nos em firme abordagem, numa disposição visual e táctil. Descobrimos assim algumas obras que fazem parte possível dessa inicial aventura, – ainda apenas estilhaçada, nestas visões prováveis de um exilio. E cujo insatisfatório e estreito caráter é aqui já bem definido e sublinhado, pela onírica onda que dele nasce.

De um abismo escuro e desconhecido no caminho mais à frente, em que já estamos e nos revemos, na obra de Jorge Molder, (Da Série o Pequeno Mundo); à ironizada elevação conceptual e religiosa do terço profano de Isaque Pinheiro (1/3); do encontro reconfortante e sóbrio do corpo no video Casal de André Cepeda; à comunicação enquanto exercicio platónico e hermético, poético e absurdo, na Soundpiece #3 (Rio de Janeiro) de João Ferro Martins; da espacial dispersão/libertação horizontal do corpo de Devires (Grelha Meio Isométrica) de Nuno Sousa Vieira; à inviabilidade do presente a que se contrapõe uma imagem de presença, em The American Sunset de Rui Calçada Bastos: eis alguns momentos possiveis deste sonhado desfile disforme, aqui revelados. Estas serão assim exemplares manifestações dicotómicas de um encontro impossível e sempre adiado. Entre o ter e o desejar, entre o o corpo e a palavra, entre o aqui e o além, entre o presente e um futuro. Afinal, entre o limite e o ilimitado.

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Se o sonho acontece – imponderável e descontrolado, fruto maior a querer raiz – como inevitável contraponto de resposta a um estado de limitação e carência, (e apesar de estar a este pontualmente amarrado na sua essência), é nesse sonhar que se manifestam as forças e objectivos a prosseguir, os obstáculos a ultrapassar, o mais autêntico espaço a alcançar.

Será então avançando assim, em desequilibrado e onírico movimento, pela esparsa fronteira entre o sonhado e o vivido, o desejado e o concreto, o desconhecido e o factual; que viveremos todas as horas da vida; e cada momento do mundo. Sempre encantados por um vir a ser. Talvez.

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Viagem

O deslocamento faz-se de paisagens breves que sempre mudam, e também interiores, de arrastadas e incompletas despedidas; das cores borradas e confusas de lugar nenhum; da espectativa ansiosa e crua, dolorosa e iludida, do que está por vir e alcançar. Afinal, da passagem enquanto estado de fugidia permanência.

Perdido nessa encruzilhada em movimento, – um parto constante a querer firmar-se, – e ausente de conhecidas referências, o sujeito navega, encravado, entre as peripécias dúbias da memória e as ilusões difusas da esperança. E são estas que dialogam, alto e surdas, numa conversa que cresce sempre, ininteligível, solta, desencaixada. Aqui, muitas vezes, revoltos momentos surgem e se impõem, abrasivos, redutores, estranhos; em disrupção, sem finalidade ou origem definida. O viajante é assim ponto movediço e frágil do encontro entre o que podia ter sido e o que virá, entre o desejado e o nada, entre aquilo que sonha e o que nunca será. E nessa ambígua e perdida deriva avança, sentindo grave a solidão de estar só, bem para além do que jamais sentiu ou esteve.

Convencido da importância irredutível dessa ascendente manobra que é o seu avançar, investe, caminha, adianta; ignorante do que não pode saber. E iludido no seu pequeno sentir, quer transformar-se, por fim, num maior ser. E em concreto, fazer-se.

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Algumas cenas possiveis dessa fragmentada aventura identitária surgem aqui: Nas fotos de André Cepeda da série Ontem, em que para trás ficou o abraço triste e cru da nua despedida, a destruição, o conforto e a ruína, o lugar hermético e azul, casa, do qual apenas cada um sabe o que guarda seu interior; na imersão estética e aquática de Adelina Lopes em Imagem Cheia, afundamento claro noutra dimensão, transparente e comunicante; no deslocamento da referência/fronteira, resignificação angular e estranha de Sousa Vieira em Entre (da série sem soalho); nas imagens de Tatiana Macedo da série Orientalism and Reverse, em que o meio de transporte é um ambiente/sombra intimista a descobrir e habitar, e o exterior um mero reflexo baço e distante; ou na obra de Jorge Molder da série O pequeno mundo, em que um registo fotográfico do sujeito feito ao espelho, o rosto indefinido mergulhado no escuro, parece dizer muito da incerta condição de entre-identidades, que assiste ao deslocamento fundamental de qualquer importante viagem sem regresso previsto.

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Metáfora maior da própria vida, a viagem reúne em explosiva combinação conceptual todos os relativos e subjectivos valores primordiais que sempre achamos pertinentes: o avançar em autodescoberta e crescimento; a enriquecedora dinâmica de encontro e relação com o desconhecido; a criação de instrumentos e recursos, próprios e fundamentais, para uma vida inteira; a liberdade de escolha do destino/natureza do que queremos ser e viver no nosso tempo.

Mas, como já vimos e sabemos, muitos são os ímpetos ilusórios e descabidos que provocam a partida; e mais ainda os desconexos mas bem reais elementos distantes e desencontrados da chegada. E nesse longo percurso, de esperança e desespero feito, espreita já um crucial e feroz erro de estratégia e alvo. A revelar-se, bem lentamente, em orfão estado; muito depois de já dado o mais largo passo.

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Encontro

Digamos agora que o encontro não é uma chegada, antes um ponto de partida para outra (con)vivência, o início de uma nova história em que também nos descobrimos e reconhecemos em relação; uma dicotomia profunda de estranheza e brilho: a acção inaugural de nós no outro, e dele em nós. O recomeço noutro lugar é sempre feito de expectativa falhada e deslumbramento, de feliz encontro de iguais e desilusão; de um aprendizado incerto e difícil, empírico, saído do desbravar (des)iludido de um enorme desconhecido.

O estrangeiro que vai para ficar integra nesse movimento duas oposições fundamentais: o firme desejo de deixar de o ser, a assumida vontade de se transformar em habitante desse lugar escolhido, de alguma forma rejeitando a sua própria origem/natureza/condição. E também a pretenção, fortemente implícita, de encontrar nesse estranho além as possibilidades, caracteristicas e oportunidades que lhe permitam por fim desenvolver-se, crescer, afirmar-se. Sempre em concordância de identificação com esse grande não-conhecido.

Os resultados destas duas motivações disruptivas – rejeição de si próprio/passado/conhecido, e projecção de um outro/futuro/desconhecido – na realidade da sua existência, no porvir, são na prática sempre incertos e imprevisíveis, muitas vezes dolorosos e incontrolavéis. E a consciência clara desse crucial deslocamento é assim, neste inicial momento de um espraiado encontro, pela primeira vez pressentida e manifestada.

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Encontramos então aqui algumas manifestações pontuais da vivência primeira, pragmática e psicológica, com o novo, o diferente: o caminhar de fora para um lugar interior por abrir e descobrir, na imagem de Molder (Da Série Não tem que me contar seja o que for); a planta, representação universal de um espaço por habitar, acompanhada de referências afetivas e distantes, de Julião Sarmento, em 182. Wittgenstein Blue; a porta/passagem/entrada de estrutura distorcida, complicada, deslocada, de Sousa Vieira em Tal como porta; o ténue resquício perdido do som longínquo/memória do mar na instalação de Ferro Martins Soundscape #1 (Rio de Janeiro), o video Episódica #1, do mesmo artista, em que a atracção e a sedução se encontram num convite irresistível e subtil ao encontro/mergulho; e ainda o abismo burocrático e identitário da integração legitimada nesse outro coletivo social/profissional das Reference Letters de Joana Bastos.

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Assim, nas malhas movediças e apertadas do primeiro encontro, entrechocam-se claramente os obstáculos e os objectivos, os corpos sonhados e as ruas desertas, a vontade de união e a parca linguagem, os costumes que somos e o que não entendemos.

Mas nesse momento mais que límpido da vida, – o reinício em chegada, – espreitam-nos já também todos os atos plenos, todas as grandes etapas, todas as emoções e vitórias, os novos e diferentes hábitos, que o futuro bem esconde ainda, em parcimónia.

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Desterro

Sempre o ponto/porto de chegada carrega desafios de novas partidas por encarar; a dura realização pragmática de vontades e projectos; o confronto duradouro e quotidiano entre um objectivo preconcebido e a vivência de facto; o desbravar afirmativo e empírico de outras realidades e conjunturas: cidade, linguagem, função, social, pessoa.

Aqui nasce a redundância surda e absurda que é atributo denominante da vida do homem: chegado onde queria chegar, descobre distante a sombra dúbia e irregular dessa imaginada plenitude, esvoaçante, fugidia e estranha, inexistente; ou quase. Descobre a obrigatoriedade circular e infinita, – e exterior à sua vontade, – desse roteiro/movimento. Vê que na natureza do novo lugar estão inscritos não os momentos que tanto quis e sonhou, mas sim já os genes retorcidos de outros inevitáveis sonhos, as difíceis conquistas que sempre valem pouco, a escala imensa de uma dimensão que tentou em vão reduzir a seu jeito. Sempre estreito no seu imbecil projectar, mais querer, sonhar.

Vê-se agora bem espelhada na exterior realidade a insuficiência e a insatisfação que moram e morarão sempre no seu profundo interior, ser sedento e caprichoso que é e será sempre, irredutível nessa fome delirante e fantasiosa que ele próprio alimenta; construindo imagens de mais; de muito; de pleno. Prisões que depois se condena assim a habitar, imaginadas riquezas ficcionadas que lhe escapam, inexistentes, como as fluidas areias esvoaçantes do mais fundo profundo do mar.

Em compulsão delirante, ilusóriamente visionária, o homem sonhará sempre, eterno refém desse escape de aumentar que o mantém activo e preso na luta por aquilo que jamais alcançará. Pois na sua alucinante capacidade de desejar- transformada em somatizado precisar, – nada nunca lhe será suficiente. Assim, viverá sempre encurralado entre o real que o rodeia e o sonhado que lhe escapa; como um animal pequeno e tonto, incapaz de ficar onde está; de viver o que tem; de ser o que é.

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Algumas visões deste extenso desterro parecem então querer aqui surgir, pontuais momentos de uma incomensurável dimensão transversal: Nas Bandeiras de André Cepeda, filme de um não lugar que é todos, intemporal e desbravado, despido de calor e sentido na sua crueza, desértica e selvagem, de bandeiras sem signo rasgadas ao vento; na pós-modernidade luminosa, impessoal e gélida, do led de Joana Bastos, Pescadinhas de Rabo na Boca, que repete em espiral viciosa as frases “Foreigners must have a job to get a National Insurance Number” e “Foreigners must have a National Insurance Number to get a job”, kafkiano ditado louco e redundante a normatizar, em contraditória pretenção paradoxal, o estrangeirado; na imagem de Jorge Molder da série Não tem que me contar seja o que for, em que um misto de espectativa, impotência e disponibilidade parece definir a chegada a esse lugar, ainda virgem mas já estéril; na Trepadeira nº5 de Mauro Cerqueira, em que partes de uma persiana não oferecem protecção, mas antes criam um espaço de tensão e risco ao serem atravessadas por longos pregos; em Abaixo da Superfície, de Nuno Sousa Vieira, em que um linóleo do atelier do artista é recortado numa referência invertida e murcha ao projeto do artista e arquitecto russo Tatlin, do início do século passado, e nunca realizado, de um monumento soviético à modernidade e à utopia comunista; e ainda na obra de João Ferro Martins, Can you tell wich kind of blue i am thinking of?, em que escutamos o ruído de um rádio desventrado em dessintonia, que alimenta a leitura sonora da imagem de uma fonte que jorra água no meio do campo. Ao idilico cenário campestre é trazido um distorcido sentido sonoro, num casamento infecundo de estranheza e frio.

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Mas tudo isto será sempre apenas vagamente pressentido e percebido, ao habitarmos a vaga ilusão onírica de um etéreo colectivo, inconsciente; e que a todos rodeia e une, firme e abstrato, englobante, em permanente e murmurada energia e relação.

Nesse desterro em que tudo mora e que tudo habita, ensaiamos façanhas de efeito dúbio e beleza estranha, impulsionados e geridos pela força bruta de um estar vivo. Sem outro remédio ou cura que o caminho, esboçamos, inclinados, passos sôfregos pela vida; cambaleantes sonhadores bem acordados. E como meros invólucros, – cheios de um processo lento e ôco que nem sentimos, – acolhemos forças e vontades a nós alheias, influentes correntes que em nós aportam, sequiosas de um porto-abrigo descontente. Pois esmagados na matéria difusa que o tempo traz, encurralados entre o passado que foi e um jamais virá, é periclitante o equilibrio pastoso do que seremos. Talvez assim: como sombras tortas, longas e atordoadas, sempre aquém desse mais que legítimo lugar sonhado. E condenados, ad eternum, a um frustrante sempre agora, um escorrente fio, eterno e fugidio.

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Breve Obituário Crítico, Também Luso

Artistas, como semideuses encarnados das pequenas coisas, inventam, belos e marginais, maravilhosas obras luzidias, em que reflectem, em tons de desafinado spotlight encandescente, os uivos libertários da sua condição de passageiros, cenas obscenas e deslumbrantes da condição de todos, de nenhum, de um qualquer, e agem, sublimes e infinitos para além do tempo do corpo, como se fosse verdade aquilo que cantam, embriagados na lúcida luz da arte, entontecidos num fazer apenas, rasgando, inúteis e siderais, todas as coisas vistas, todos os cantos de côr e luz, algum momento que reste, e em interrompido recomeço finalizado, semeando uma pátria nova azul por sentimento, sonhado, invadem, gritantes, supremos, superiores, o olhar brilhante com um futuro bom aberto, e com a força assim chegada e suficiente, acabam com tudo de vez e para sempre, que não seja um novo rumo a caminhar, em passo e tom novos e diferentes.

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Jorge Emanuel Espinho

O Amor de Luiz Zerbini – Tropical Total ou Intuição, Sensação, Iluminação, Carácter

In ARTE on 04/02/2013 at 17:59

No Tropical tudo está sempre ligado e quente, tudo se toca e se acrescenta, tudo cresce e se ilumina, vivo, espesso, sensual, colorido. O Tropical é a inveja do mundo porque ali mora a verdadeira intensidade – mesmo quando subtil -, a que exige abertura e atenção disponível, a que recompensa com paixão calma, segurança alargada, alegria. Na luxúria embriagante do trópico habita a sincronia confusa mas reveladora do meio – não divisor mas unificador -, ponto de encontro dos extremos em fusão enriquecida, total e sobreaquecida, exagerada, das sensações que iluminam e alimentam o mundo. Viver nesta realidade que é um permanente e complexo tesouro descoberto, só se faz sério com despojamento e liberdade nas sensações, abertura e leveza no sentimento, ambição e segurança nas emoções. Para colher desta real e cravejada multiplicidade preciosa é necessário a alma calma de um garimpeiro louco, no corpo perdido de um marinheiro. A profícua deriva da vida, o Amor. Luiz Zerbini nasceu em São Paulo em 59. Adolescente, experimentava insights ao passear aos domingos pela cidade vazia, entrando numa rua e sentindo como a luz se transformava em escuro, o ruído das cores no ar, o silêncio, os raios do sol a descer, a terra mais fria naquela enorme sombra, a imponência vertical dos prédios, a tontura, embriagado nessa visão tudo lhe dava a entender de repente a natureza verdadeira das coisas, tudo lhe tocava, e acordava nessa dormência, clarividente e sensível, inundado na emoção, pensava na nuance da côr, no efeito da luz, transcendia-se assim, de corpo inteiro, via-se iluminado nesse estado. E aberto, solto, entendia. O seu professor de pintura Van Acker, atribuiu essas experiências ao facto de ele ser, afinal, um artista. Zerbini ficou surpreso, mas acreditou.

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Brasilia, 2011.

Esta vivência e aprendizagem sensacionista e contínua da vida, que se traduz numa disponibilidade e atenção crescente ao pormenor mas também ao óbvio  – pois em tudo mora o significativo, o magnífico -, alimentou a sua relação com a pintura, e é também profundamente alimentada por ela. Essa circularidade mágica é assumida e sublinhada pelo artista. Nasce da privilegiada naturalidade dos que reconhecem na exterioridade a multiplicidade significativa da vida verdadeira, quando reconhecida e transformada pelo crivo sensivel e único de cada um. A arte de Zerbini é uma imersão reconstruída da experiência exótica de estar vivo, deslumbramento constante de reconhecimento e identificação, testemunho do generoso percurso a que a vida nos autoriza, assim estejamos livres e receptivos, abertos e sinceros, autênticos num lugar nosso, que será sempre de passagem e relação.

Importa saber reconhecer a verdade que habita no caos do acaso, pairar o olhar como um pincel a ver melhor, escolher as cores profundas que melhor iluminam. É nesse significativo processo que o artista se alimenta, e que vai devolvendo depois – enriquecidos e aumentados ele e a experiência – ao mundo, a nós, a súmula pertinente desse cíclico percurso, feito pertinente paisagem. Mais do que implícita nesta estrutura activa de vida está a desmistificação da hierarquia das coisas, dos fenómenos, das pessoas. A contribuição é total, livre, autónoma.

Quando propôs ao editor Charles Cosac o livro Rasura – transbordante documento que demoraria 10 anos a completar, e representa uma súmula possível do imaginário e do método do artista, preenchido de referências, imagens, obras, palavras e esboços, seus e de outros  – e lhe transmitiu a vontade de explorar nele a verdade do seu universo criativo, suas influências, seu processo, seu caminhar, a pergunta veio certeira: “E você não tem medo?” ao que respondeu “Sim, mas isso não é razão para não fazer!” Esta honestidade e seriedade são raras e desconcertantes, e o resultado foi um fabuloso e generoso testemunho da complexa mas livre teia que representa o mundo particular do artista.

A primeira imagem desse livro configura uma importante revelação sobre a relação de Zerbini com a arte e o tempo: num enorme espaço expositivo dezenas de pinturas de todas as épocas e estilos encontram-se espalhadas, paralelas mas em vários graus de distância e proximidade, de frente para o visitante. Apetece percorrer os espaços entre aquelas pinturas saídas de vários tempos, de vários lugares, de várias idades, mergulhar naquele mar onde tudo conversa, tudo se relaciona, tudo faz parte. É assim, diz Zerbini, “que entendo a história da arte, sem essa coisa do tempo. É tudo sincronizado!” É impossível não relembrar aqui os insights do artista, por ele descritos como “Um bombardeamento de informações simultâneas, uma avalanche de sensibilidade”.

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Um dos mais nobres estandartes do regresso à pintura nas artes plásticas brasileiras, Zerbini não se fica por essa expressão, que domina e exibe como poucos. Membro do colectivo sónico e sonoro Chelpa Ferro, Zerbini foi actor, cenógrafo, faz instalações e colagens, escultura, ilustração, escreve, e vai construindo uma obra que é uma paisagem única que se intersecciona, feita de vasos comunicantes interligados, pelo fluxo de que são feitos. Plena, luxuriosa, viva. O ser tropical manifesta-se assim naturalmente numa profusão de meios, sempre atento e reflexivo, generoso e profundo na sua aportação à vida, matéria prima total de que bebe e que alimenta, transformador e sensorial, livre e consciente, lúdico, criativo, intenso.

No MAM do Rio, Zerbini apresenta agora a fabulosa exposição Amor, e apresenta-se nela, inteiro. Divide-se em três partes essa mostra, geografia impossível de um mapa simbólico, total. Uma parte ocupa três paredes que parecem abraçar o visitante: luxuriosas pinturas de vários metros quadrados que são uma janela enorme e complexa com vista para tudo, súmula pejada de signos e símbolos que mergulham na natureza e saiem dela, a tecnologia, a luz e a côr, o urbano, o impressionante universo pictórico de uma mão que inventa a reproduzir a experiência única do viver, e a natureza. Neste conjunto se encontra High Definition, selva viva de 2,5m por 4m que demorou um ano a pintar todos os dias; acompanhada de outras paisagens e ambientes, todos intensos, todos rigorosos, todos admiravelmente profundos, completos, sedutores. À esquerda, caveiras – símbolo várias vezes revisitado por Zerbini – seguram do chão as obras, qual contrapeso absoluto, lembrança do efémero, homenagem poética ao humano sentir e pensar da vida.

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High Definition, 2010

Na parede oposta outro tipo de trabalho: slides antigos colados formam pequenos painéis, criam jogos de côr, pequenas imagens desconhecidas mas familiares sugerem memórias, talvez inventadas talvez distantes; surgem ironias de familiaridade, as viagens, a praia, o prazer; a descoberta, a infância, a arte, a moral… Este jogo lúdico, para o artista também zona de descanso da pintura, talvez assinale a importância difusa da memória – subjectiva e abrangente, importante mesmo quando oriunda da vivência dos outros – enquanto espaço móvel a que regressamos, visitantes curiosos e sedentos, saídos da oblivion particular que sempre nos acompanha, crescente.

Mas é no centro da enorme sala que se parece jogar o meio – do latim medium -, o esparso eixo, o espaço vivo tropical que é origem e destino, fonte e produto, fim em princípio, essência e forma; o país particular do artista em que as relações infinitas de distante proximidade e de próxima distância se alimentam, mudam, mutam; o âmago íntimo e aqui partilhado que o criativo habita e transforma; a ponte múltipla que o alimenta e dispara, em todas as direcções, como uma esponja ensopada e sedenta, bebendo sempre.

À maneira de uma mesa de estudo naturista – tradição formal com ecos na obra e postura de Zerbini – uma enorme bancada acolhe inúmeros objectos, plantas, insectos, troncos e folhas, areia, superfícies de reflexão e côr, frascos de vidro e imagens, tudo ali, o gabinete possível de vivência do artista, uma cama/casa completa onde aos sonhos se sucedem os dias e ao deslumbramento a relação. Em misterioso entrelaçado entre horizonte e vertical, côr e conteúdo, sensação e olhar, carne e conceito, eis o precioso Planeta Zerbini. A descobrir!

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Mais uma vez aqui impressiona a profusão delicada mas explosiva de referências e relações, e a coragem com que esse caldo produtivo é revelado; a simplicidade disponível do artista, consciente e afirmativo das misteriosas e profícuas relações com que o acaso tempera a criação e a vida e alimenta o ser e o sentir, o estar, o pensamento. Mais do que acolhimento, nesta mostra sentimos a envolvência desejosa de ficar e mergulhar devagar, nessa multiplicidade tropical e quente de um olhar e sentir o mundo, despidos nesse movimento, alcançando o que só de fora preenche, o natural ocupando o particular, a exuberância plástica da selva também interior, tradução poética que a arte faz, da misteriosa rede das coisas e dos acasos da vida.

20110830085732-MW4524_Mamangu_-RecifeMamanguà Recife, 2011

Mas quatro passos parecem querer se definir como a tal tragetória circular importante na vida e obra de Zerbini:

1º – A Intuição. O guia e o impulso na deriva, a ambição e a soltura no olhar, leve e selectivo, cuidadoso, delicado.

2º – A Sensação. Descoberta e reconhecimento do fenómeno, o calor do encontro, a experiência, a relação.

3º – A Iluminação. A integração do mundo, a corporização, a consciência, o excesso e o crescimento.

4º – O Caráter. A essência condicionante e transformadora de tudo, a nova forma de ser e de estar, sempre em mutação, o enriquecimento fertilizador e estruturante.

Estes quatro degraus formarão assim uma escada única em espiral infinita, cíclica e sempre activa, pulsante e abrangente, uma filosofia criadora feita acção, vida e relação. Talvez seja esta ambiciosa e orgânica forma de ser e de estar, este caráter, a maior contribuição de Zerbini, pintor poeta que nos entrega nessa estrutura, uma elevada mas acessivel versão completa a ser vivida, do tal ser maior tropical.

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não é sobre o que se está vendo

é sobre o que se está ouvindo quando se está vendo

não é só sobre o que se está ouvindo quando se está vendo

é sobre o que se está sentindo quando se está ouvindo o que se está vendo

não é só sobre  o que se está sentindo quando se está ouvindo o que se está vendo

é sobre o que se pensa quando se está sentindo o que se está ouvindo quando se está vendo

não é o que se pensa quando se está sentindo o que se está ouvindo quando se está vendo

não é o que se está sentindo quando se está ouvindo o que se está vendo

não é o que se está ouvindo quando se está vendo

é só o que se vê

Luiz Zerbini

Catálogo Electrónico Exposição Amor: http://www.automatica.art.br/livros/catalogo_zerbini.pdf

Jorge Emanuel Espinho

A Cidade Sonora de Floriano Romano – Babilónia Afectiva, Segredo, Utopia

In ARTE on 15/10/2012 at 13:44

Num espaço amplo dominado pela presença imóvel de colunas grossas de pedra, no meio da cidade, bem no meio da cidade, descansam orelhões azuis deitados, cada um cantando a sua melodia. Gritando e não gritando, segredando alguns baixinho, dizem todos os sons coisas várias do lugar longe de onde vêm. Esta música de outro tempo escreve-se em mistura naquele espaço, fundindo-se e sobrepondo-se colorida numa massa contida apenas pela nossa limitação de ouvir; parcial sentido que só nos vai entregando uma parte pequena daquela sonora floresta de invisiveis recantos.

É inventando a trilha por entre os jorros particulares do registo sonoro que vamos deambulando, na privada aventura da descoberta de uma ilha em mutação permanente no meio da cidade; e que como ela, se faz também da amálgama cacofónica de mil linguas e vozes, de rumor sublime e selvagem, de cor e tecido intocáveis.

A várias partes do mundo o artista pediu registos sonoros numa intenção que terá mais de afectiva homenagem que de estratégico, e que marca esta obra com a carga forte de uma clara vontade: a construção de uma cidade privada e simbólica – suspensa e imaterial mas sólida e complexa, ruidosa e corpórea – feita de histórias e lugares reunidos num critério de curiosa e disponível afinidade; sempre decorrente de uma cumplicidade verdadeira e natural.

                                                   

Por esta construção nascida de um cosmopolitismo íntimo e exclusivo somos convidados a derivar, testemunhos do incompreensivel turbilhão que vamos atravessando, e ignorantes perdidos do mapa de relações e sentimentos em que assenta esta teia, feita das origens e fontes diversas que vivem espalhadas pelo universo particular do artista, e pelo mundo.

Parece no entanto que este ambicioso hino à criação de um mundo singular de selectividade afectiva – que criteriosamente excluí o acaso e a obrigatoriedade de convivências não profícuas ou involutárias – carrega no seu valor metafórico o germe de uma afirmação politica, consciente e pessoal, o impulso claro de uma vontade transformadora da articulação social: será sobrepondo ao ruído descontrolado e caótico da humana multidão a minha mais fértil teia de relações, que inventarei um espaço de liberdade criativa, de descoberta, de transbordante mas elevada conversa, de verdadeira habitação plena da vida.

A Cidade Sonora de Floriano Romano quer fazer-se em cada um – íntima, livre, sem fronteiras – como a mais fecunda das Babilónias!

Este será assim o lugar privilegiado que construímos e habitamos, presentes os que mais nos fortalecem, estimulam e alimentam; uma escolha assumida que vamos fazendo, rejeitando a roda perdida e louca do mundo; afirmando-nos como arquitectos do nosso imediato meio, superiores a leis de corpo, conduta, geografia, fronteira… Este é um espaço de colectiva liberdade, onde a única regra é a nossa livre escolha dos outros, companhia que se afirma depois pluralmente ruidosa e produtiva!

Como numa construção que premia a eleição enriquecedora do outro diferente, sublinhando a complementaridade e o engrandecimento através da união e do encontro do não igual, encontramos aqui a convivência de facto de registos que lá fora, na vida, se encontram perenemente afastados pelo frio absoluto da distância. Floriano Romano dá aqui corpo à sua utopia particular: esta cidade será a sua Babilónia Afectiva, espaço de partida para uma entrega e aprendizagem em vivência aberta e complexa; um manancial segredado feito rumor elevado; um coro de canções distantes a marcar na proximidade a construção multifacetada do verdadeiro colectivo possivel. Desgarrado, caótico, inventivo, abundante.

Se esta obra é um alto exemplo incrível no seu simbólico e anárquico desbravar cocofónico de caminho, o seu carácter utópico não lhe retira força. Antes lhe empresta a energia mágica que sentimos, ao intuír o inalcançável território previlegiado, do que quereríamos que fosse a estrutura habitável da nossa vida em comum…

Em 1516 Tomas More publica Utopia – o não lugar – onde descreve uma ilha em que impera a ordem e o equilibrio, a tolerância religiosa e a ausência de propriedade privada, numa sociedade igualitária e comunitária. Encontramos na primeira edição da obra o Alfabeto Utópico, uma escrita criptográfica e simétrica, que desapareceria das edições posteriores. Ao invés desse reino equilibrado e harmónico, neste não lugar populoso de Romano é precisamente o forte atrito produtivo entre os sujeitos que cria a paisagem de vida do colectivo. E talvez ao contrário de um alfabeto novo a decifrar a realidade, nos seja aqui partilhado o segredo de uma maquete sonora assimétrica, ainda incompreensivel e bruta, de um novo esquema ambicioso: o rasgar de pretenciosas regências de ordem, de nação, de convivência, de linguagem…

Rio de Janeiro, Setembro, 2012.

Jorge Emanuel Espinho

Sandra Cinto – A Filosofia da Linha – Pormenor, Repetição, Relação

In ARTE on 24/09/2012 at 14:03

A obsessão é a mais ambiciosa das entregas na relação, e a mais larga também das exigências. Uma exigência exclusiva de perfeição e intensidade absolutas, uma procura doentia de entrega total e dedicação, uma cobiça maior a anular todo o resto – bem sobreposta que se coloca a tudo essa expandida relação.

Como uma emoção excessiva e permanente, invasora e superlativa, esta ideia fixa e compulsiva – de direcção constante mas crescente – procura sem nunca alcançar a plenitude de uma compreensão; o dominador entendimento de um outro, a mais profunda penetração e conexão, o maior insight. É dominando através da ânsia de dominar – incontrolável, crescente, absurda – que esta emergência permanente se amplifica e contamina. Transformando assim uma visão/relação particular numa procura louca e incessante de mais, de maior, de melhor. Uma lenta corrida total, sem meta nem final.

untitled, 2010, 320cm x 250cm x 4cm

Encontramos na obra de Sandra Cinto uma abordagem criativa e metódica profunda e absoluta, com este altíssimo grau de entrega e exigência. Tanto no objecto tratado, claramente definido – o encontro das ondas do mar, o céu estrelado e escuro, a selvagem natureza das águas, a tempestade contínua que sabe a metáfora clara de uma interioridade vulcânica – quanto no processo de trabalho: os milhões de linhas que vão edificando lentamente aquelas vagas, aquela espuma, alimentando aquele encontro constante; e construindo um espaço, que é feito das pequenas particulas ínfimas do traço, que vai inventando e fazendo esse todo imenso. A escrupulosa dedicação minuciosa a um gigante que se ergue devagar…
A linha é nesta obra o fio condutor por onde avança e circula esta sempre crescente relação/narração, mas também a materialização no espaço – que vai criando e compondo – do próprio tema que é o alvo dessa criação. A linha corporiza e veicula a relação entre a artista e o seu assunto, dando também corpo a esse objecto, e com ele decidindo e construindo o lugar onde acontece esta estreita e explosiva relação. Na linha pulsa e flui esta convivência em tom de permanente descoberta; da linha se faz o corpo crescente e vivo do tema; é a linha que define o alto território onde tudo se dá e acontece. Como refere Sandra Cinto a propósito de um trabalho recente: “Para mim cada pequeno ponto, pequena marca, pequena linha, é
importante… Uma espécie de filosofia, pensar que cada pequeno detalhe, pequena ação, pode mudar tudo…”

A escrupulosa dedicação minuciosa a um gigante que se ergue devagar…

É desta relação de intimidade fértil entre a artista e o traço que tudo vem, germinando nas horas de entrega solitária, erguendo-se no lento aprofundar de uma densa familiaridade. Olhamos aqui o oceano inventado saído de uma convivência funda que se levanta e expande, avançando sempre, saído e criado que está nessa interioridade relacional.

Se por um lado o tema se mantém constante, a relação com ele vai-se gerando e desenvolvendo em movimento, noutros espaços, noutros momentos, noutros tempos. Esta zona de intersecção mutável entre a artista e o seu interlocutor exclusivo caminha e cresce continuamente; num ritmo próprio e autónomo, independente das partes que o alimentam. Pode-se dizer que aqui o terceiro elemento – a relação, a obra, a arte – se manifesta como uma conversa livre que se vai indefinindo à medida que acontece, que se cria, que se espraia. Parece haver sempre e ainda muito por percorrer, por surgir, por desenhar. Como numa obsessão livre – sempre solta e ambiciosa – encontramos aqui, e manifestado até na alta escala de algumas obras, um corpo de trabalho quase anárquico na sua transbordante e insolúvel fertilidade coerente; na sua natureza selvagem, irresolúvel, explosiva.

Mas ao contrário de algumas outras relações também íntimas e intensas mas bem mais fechadas, neste seu processo particular a artista integra ainda outros sujeitos na acção, para além dos espectadores. Colaboradores que com ela regularmente vão também dando corpo à tarefa, e até voluntários, como aconteceu num recente mural feito para o Museu de Arte de Seattle. Esta postura de abertura e partilha acentua não só o carácter universal da sua obra – que parece apontar para a interioridade e o inconsciente simbolizados pelas águas como os planos onde se joga e acontece o verdadeiro pulsar e questionar primordial da vida – como revela uma generosa oportunidade que nos é oferecida de participar numa relação que importa a todos entender, sentir, trabalhar. Fazer nossa também.

Pôr o espectador dentro da água… nas palavras da artista…

Ao entrar na acção aparentemente estéril, mecânica e repetitiva que a linha impõe, somos convidados a entender, também criando, esta filosofia do pormenor; numa imitação que vai reproduzindo lentamente a enorme interioridade abstrata de que trata toda esta exteriorização minuciosa.

Parece ser de facto sobre a intersecção obssessiva e incontornável do homem com o seu mundo interior – o seu inconsciente profundo, o seu lado mais eruptivo e imprevisivel mas condicionante e estrutural, o espaço do não orgânico – que trata este corpo de trabalho inteiro. A própria água parece materializar essa obsessão circular – sem limite ou fronteira – que surge em obras que querem continuar ao infinito; discorrendo sobre a urgência do olhar ao âmago ardente do que somos; ao pulsante inconsciente sobre o qual sempre agimos, pensamos, decidimos. Se por um lado é notória aqui a magnitude imensa e o poder incontrolável que o sentimento involuntário sobre nós exerce; igualmente se sublinha a obrigatoriedade da nossa relação com ele; clamando-se pela urgência permanente dessa descoberta em relação.

Longe da fechada rigidez cristalizada de outras fixações obssessivas, o trabalho de Sandra Cinto abre-se para nós na sua livre e solta coerência – partilhando-se, envolvendo-nos – tratando connosco de avançar na narrativa ampla que vai fazendo de uma convivência íntima mas universal, única mas total. Discorrendo e alargando-se sempre, esta obra vai dando forma à nossa relação com o inalcançável e invisivel inconsciente aquático, que mora altivo e solitário na natureza mais profunda do homem.

Revista Amarello nº 9, São Paulo,

Setembro 2012

Jorge Emanuel Espinho

Daniel Senise: O Reino e o Tempo ou O Tempo do Eterno – O Homem do Efémero

In ARTE on 10/09/2012 at 14:13

Quase Infinito, 1992, 72x183cm.

Enquanto pródigo habitante do espaço físico, agente transformador e soberano desse meio tangível e tratável, o Homem cedo se confrontou com o inexorável e despótico avançar do Tempo, senhor supremo, absoluto e implacável; força maior com alcance e domínio sobre todas as coisas, fluxo imparável a relativizar e destruir todas as construções humanas, e o próprio homem.

É reduzido a uma inaceitável condição de ínfimo ponto ruidoso no infinito oceano do intocável Tempo Absoluto que o homem organiza a sua vida na relatividade pobre de um único artifício: o calendário, os séculos, os dias do ano, o relógio – uma algema tonta a contar-lhe o lento escorrer do tempo, já perdido. É enquanto habitante involuntário de um espaço estreito, à deriva, – suspenso que está e preso no seu irrisório movimento obrigatório de viver, – mergulhado no incomensurável manancial do Tempo que não alcança nem compreende, que as fúteis estruturas e construções que inventa lhe alimentam a ilusão de criação, de duração, de solidez, de mudança…

A característica principal contra a qual o homem luta, a sua finitude e a transitoriedade de tudo o que pensa, planeja e constrói, estará para sempre ridiculamente subjugada ao eterno e infinito existir do Tempo. O Tempo não avança nem recua, apenas é. E tudo o que nos resta será brincar a ser Deus, inventando ilusões de criatividade, pertinência e duração, obrigatoriamente distraídos nessa sobrevivência, alheios à suspensão estéril que o Tempo do Infinito impõe; tudo relativizando, tudo reduzindo, tudo terminando.

Parece ser que esta antiga e actual problemática, – desafio pelo homem sempre perdido, mas sempre aceite – de agir apesar do Tempo, se manifesta em forte presença na obra de Daniel Senise.

Encontramos no seu trabalho claramente evidenciados os dois planos, – a Acção do Homem e o Tempo Absoluto – não dogmaticamente apresentados mas relacionando-se sempre, conversando; no dramático e silencioso registo de uma sedutora plasticidade intemporal. O tempo que tudo toca como uma membrana leve mas transformadora, envelhecedora, manifesta-se e impõe-se a todas as imagens, todas as estruturas, todas as construções e ideias que o artista nos vai revelando, à maneira de uma história imparável de final predefinido mas sempre adiado.

Tudo isto apesar da existência inglória da Memória, depósito crescente e arrogante de coisas mortas, que vai aumentando, naturalmente inversamente proporcional ao tempo que teremos ainda pela frente. Nalguns trabalhos de Senise encontramos não estruturas suspensas no Tempo, mas sim compartimentos organizados – por vezes já corroídos e minados por ele, – que parecem referir-se a esta armadilha subjectiva exagerada pelo homem, a lembrança. A seriedade do trabalho do artista obriga-o a apresentar estes receptáculos/contentores do passado como eles na realidade são: vazios. Já que a sua real natureza é a de meros envólucros do que já foi, do que já não existe. Claro que também aqui foi o tempo o grande nivelador, imprimindo a sua firme marca autoritária e suspendendo/anulando todas as coisas…

Soft and Hard, 2007, 250x465cm.

Todo o trabalho de Senise se vai compondo num corpo crescente, coerente e único, que habita o silêncio intemporal onde tudo jamais acontece, onde todas as coisas são esboçadas, pressentidas, pensadas. Este ambiente fora da história apresenta-se com uma carga arquetípica, representativa de uma arqueologia do tempo onde pontua efémera a circunstancial e frágil acção humana do pensamento.

Nalgumas das suas obras a conversa impossivel entre estes dois planos, o Tempo Absoluto e a Acção do Homem no Mundo, parece querer resolver-se, encontrar uma síntese, uma resposta; ou talvez melhor, explicar num só lugar/objecto a impossibilidade de um encontro de facto.

A pintura Quase Infinito pertence a este grupo sumário. O simbolo de Infinito gravado a ferrugem e interrompido no seu movimento eterno, aponta claramente para a falibilidade do homem no tempo, a incapacidade de verdadeiramente o compreender, a estreiteza das representações que faz dele. A caducidade e limitação da linguagem simbólica é aqui assumida como um handicap na nossa relação finita e incompleta com o intemporal…

Piscina 2, 2003, 185x290cm.

Também na série Bumerangue é a ferrugem que avisa da corrupção cruel que o tempo a tudo aplica, mesmo ao mais efémero e leve dos movimentos. Esta crueldade manifesta-se particularmente nas sobras do tempo – a memória do que já foi – e parece ser também o tema da série Piscinas; lugares de lazer aqui saídos de um inalcançável passado que tinge essa beleza dos tons gastos e obscuros do tempo perdido.

Paisagem com Levitação, 1995, 130x190cm.

Mas uma obra do artista se impõe em particular neste contexto, ao resumir de forma dramática e brilhante a subjugação silenciosa e nunca resolvida que o tempo absoluto impõe ao homem. Eva, instalação de 2009 apresentada no Centro Cultural de São Paulo, coloca entre quatro paredes a escultura de Victor Brecheret do mesmo nome. Estas paredes são feitas de tijolos de catálogos e convites reciclados, e vão crescendo gradualmente ao longo dos dias até taparem por completo a figura humana, aprisionando-a até do olhar exterior. Se Eva simboliza a primeira mulher, o arquétipo da fertilidade, a mãe de toda a humanidade e a responsável pelo impulso que levou Adão (Homem) a comer a maçã da árvore do conhecimento; as paredes representarão claramente o inalterável avançar do tempo, o passado, o enorme branco que engole a história e reduz a patéticos pontos coloridos as palavras, as datas, os acontecimentos, as ideias e as aventuras que o homem continuamente persegue na sua ânsia de existir.

Se em 1995, na pintura Paisagem com Levitação, Daniel Senise nos mostrara literalmente a suspensão estéril e absoluta com que o tempo infinito trata a criatividade fértil do homem, também ali representada pelo feminino, nesta instalação somos postos perante a consumação lógica, irrecusável e eficaz dessa ideia.

Eva, 2009.


Eva, 2009.

Porém, se o Passado se vai impondo inexorável a todas as coisas presentes na vida do homem, também de Futuro se faz a sua reflexão e acção na vida. As estruturas que vamos encontrando ao longo desta imensa obra parecem remeter para as projecções que vamos fazendo na luta contra o tempo, revelando esse plano como um ensaio para um futuro feito de ideias, conquistas e projectos. Apesar da consciência da sua finitude e do efémero de tudo o que cria e representa, o Homem continua a sonhar, a projectar, a construir; crente que nesse movimento pleno de Vontade de Infinito se vai esquivando à maquinação suprema do Tempo. Estas construções mais ou menos ordenadas contam da semente caótica mas profícua que germina da vontade humana.

Prodrome III, 2010, 100×155 cm

Assim, longe de derrotado, o Homem parece querer continuamente enquadrar na sua vida feita de efémero e transitório todo o tempo possivel, ignorando a lei superior do Tempo Absoluto – que o suspende e lhe concede apenas um breve momento de existência no seu oceano gigantesco de Infinito. Seremos pequenos sobreviventes de um lento e contínuo acidente permanente, empenhados nessa luta corajosa pela vida.

Encore, 2006, 215x215cm.

Daniel Senise, engenheiro de formação que de alguma forma trocou as construções efémeras do homem por simbólicas estruturas maiores que repousam suspensas no silêncio imperial do tempo, trabalha há trinta anos sobre esta temática primordial. Vai-nos revelando sempre um corpo de trabalho que compreende e sente a importância da acção e do sonho na vida curta do homem, mas igualmente a sua pequenez e inconsequência, enquanto releva também do domínio feroz do Tempo Absoluto sobre tudo. Se compreendermos toda a sua obra como um enorme espaço orgânico, – que vai crescendo e discorrendo em lenta deriva sobre a breve relação entre a curta existência do Homem e o corpo infinito do Tempo, – talvez nos aproximemos então da sua verdadeira poética, natureza e importância.

Quase aqui, 2011, 140×190 cm

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Jorge Emanuel Espinho

António Dias – Zeitgeist, Arte e Liberdade, A Vida Maior

In ARTE on 10/08/2012 at 16:58

Algumas (raras) vidas abrem preciosos caminhos entre as águas calmas do quotidiano normal; caminhos profundos que depois se alargam revelando lugares cheios de jóias, importantes e reveladoras jóias; como direcções novas que partem intemporais do agora, apontando firmes e abertas possibilidades para uma vivência maior, em tudo mais livre e actuante, pensante e preenchida. Estes percursos de excepção, generosos na entrega e  estruturantes na partilha, são rios finos que se fazem largos mares numa abrangência intensa e fenomenal pelas pessoas do mundo.

Viver a Vida na Arte e desta partir sempre num contínuo recomeço coerente com o Melhor como objectivo é terreno habitado por poucos; mas respirado, depois, por tantos muitos…

António Dias nasceu na Paraíba em 1944. Tendo na infância vivido em várias cidades, lembra-se de uma casa sem imagens, nem sequer religiosas, apenas um barquinho de madeira feito pelo avô, emigrante português de Fafe, homem de cultura vasta e “muito importante”  na vida do artista. Ao vêr o neto desenhar, o velho aconselhava: “Quando tem que colorir não faça esse colorido todo “plat”…” Do gramofone saía sempre e só musica clássica, que “como ninguém me explicava nada, associava a momentos de terror”, conta o artista. Sempre gostou de musica popular. Aos 10 ou 11 anos descobriu um programa de musica árabe numa rádio da sua cidade, “fiquei enlouquecido por essa musica”. Numa casa sem imagens mas com muita musica e muitas palavras, “Esse avô foi o caminho para o desenho, e também para a literatura, que a casa tinha uma boa biblioteca…”

António muda-se para o Rio de Janeiro aos 12 anos de idade, começando a morar sózinho aos 16 – num já vi tudo, espaço pequeno que funciona também como atelier, inaugurando uma tradição para a vida – trabalha como ilustrador e designer e faz já os seus primeiros trabalhos artísticos. Cedo revela uma consciência politica aliada a um espírito crítico e criativo muito raros para a sua idade, proeza que atribui às “más companhias” que frequentava, amigos mais velhos do que ele, pois os da sua idade “não pensavam nada”. Vive em Botafogo, em Santa Tereza, em Copacabana…Realiza a sua primeira individual aos 18 anos, em 1962, no Rio, apresentando pinturas que nas suas palavras  mostram “Uma arte abstrata, com formas e símbolos principalmente tirados da cultura indígena.” Pinta, desenha, constrói, ilustra. Acompanha a música popular brasileira quase todas as noites nos botecos boémios da cidade, com um “bando de malucos”, companheiros de estrada como Carlos Vergara, com quem foi construindo uma rede de relações que surgiu expontaneamente, da “necessidade de abrir caminho”. Na arte como na vida…

Nota Sobre a Morte Imprevista, 1965, 195x176cm.

Sobretudo depois da revolução militar de 1964, António trabalha numa “liberdade poética que sempre foi mais importante do que aquela coisa panfletária em si”, como afirma. Vai construindo um corpo de trabalho que espelha forte pensamento/acção/reacção ao pardacento e opressor estado das coisas, vai revelando uma energia e consciência de facto poéticas mas também actuantes, como na obra Nota Sobre a Morte Imprevista, de 1965; peça de sentido intemporal, crescente, actual.

É nesse ano que participa na importante colectiva Opinião 65 no Museu de Arte Moderna do Rio, mostra inspirada pela acção do Grupo Opinião – formado logo após o golpe militar de 1964 por artistas do teatro ligados ao Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes, entretanto tornado ilegal pela ditadura – e que cedo contaminou outras áreas de acção e criação artísticas. O poeta e critico Ferreira Gullar escreveria: “Algo de novo se passa no domínio das artes plásticas, e esse carácter novo se pronuncia no próprio título da mostra: os pintores voltaram a opinar! Isso é fundamental!”. Idealizada por Jean Borghici e Ceres Franco, a mostra apresenta trabalhos de artistas europeus e brasileiros, marcando uma “ruptura com a arte do passado e com uma estética cómoda, em referência à pintura abstrata”, refere Franco no catálogo. Catalizadora, a exposição abre caminho para várias outras iniciativas e acontecimentos de contestação ao regime; exposições, debates, performances… A onda ganha vida, e cresce!…

Depois de receber o Prémio de Pintura da Bienal de Paris de 1965, Dias realiza a sua primeira individual de pintura na Europa, na mesma cidade. Entretanto a situação no Brasil torna-se-lhe insustentável. No ano seguinte participa na Opinião 66 no MAM do Rio e parte para Paris com uma bolsa de seis meses do governo francês. Ficaria dois anos, até Maio de 68. Mora no Quartier Latin, no “centro da batalha” em que “tinha que participar, pois a situação era bastante pesada…”. O seu trabalho assume uma vertente mais conceptual, mantendo afinadas a consciência social e politica, sempre presentes e muito importantes no seu percurso. Obras como Opressor/Oprimido, desse ano, deixam poucas dúvidas sobre a visão crítica e ambiciosa do artista em relação ao estado das coisas e a uma forte necessidade de mudança…

Mas a vivência em Paris ficaria aquém das suas maiores espectativas: “O que foi mais importante em 68 foi criar uma distância minha daquilo que eu idealizava que fosse a experiência lá. Comecei a ver de uma maneira muito crítica a minha participação, as exposições, os meus contactos, tudo. E nesse sentido eu me sentia por um lado um pouco isolado, mas por outro muito confiante nas experiências que nós tínhamos tido aqui no Brasil anteriormente. A Opinião 65, a Opinião 66, o contacto com o trabalho de Hélio Oiticica, Ligia Clark e outros colegas daqui…” Da idealização projectada de uma sociedade diferente, à realidade que se vivia de facto – a distância impunha-se: “Havia coisas que para mim pareciam… olhar em volta e dizer: Mas vocês não têm artistas mulheres?! Na altura tinha uma amiga portuguesa, Lurdes de Castro, uma das poucas mulheres artistas que rodavam por ali…”

Bem diferente foi a chegada a Milão, onde se instala ainda em 68. “Antes das primeiras exposições de arte povera, embora já se falasse disso, eu encontrei um clima tão experimental como o que nós tinhamos aqui (no Rio)”. É então ali que o artista reconhece um lugar e uma energia mais de acordo com as suas preocupações e prioridades criativas, ao “Encontrar gente que não estivesse simplesmente alterando os estilos, reciclando problemas mais antigos, até velhinhos mesmo… como sentia que acontecia em Paris.”

Anywhere is My land, 1969, 130x195cm.

É já na Itália que produz Anywhere is My Land, uma das suas obras mais reconhecidas. Deixa visionária, enigmática e afirmativa, encontramos aqui não só o que viria a revelar-se um statement abrangente para a sua vida; mas a exigência responsável e ambiciosa da acção do homem/artista no Mundo. Associada à consciência da condição de liberdade inerente ao plano mais elevado da vida, parece pulsar aqui latente uma responsabilidade – que fazer com essa acção? Onde agir, o que transformar? Com o cosmos quadriculado como pano de fundo, a afirmação/pergunta parece revestir-se de importância capital: sendo o meu lugar qualquer lugar, para onde ir? A viagem/processo no centro da acção, o sujeito liberto, menos de si próprio…

Sempre baseado em Milão, António vive numa comuna partisan nos arredores da cidade, frequenta o restaurante do Partido Comunista local, faz amigos e cria relações, avança sempre no seu trabalho; e em 1969 inaugura a sua primeira individual, regressado à pintura, na galeria Studio Marconi. Frequenta vários ateliers e artistas italianos e participa em várias colectivas importantes por toda a Itália, mas também no estrangeiro.

Opressor/Oprimido, 1969, 8x32x32cm.

É em 1971 que faz parte com Bruce Nauman, entre outros, da 6th International Exhibition do Museu Guggenheim de Nova York. Edita o disco Record: The Space Between, apresentado na mostra Record as Art Work do Royal College of Art, em Londres. Lado A – A Teoria do Contar, Lado B – A Teoria da Densidade. A Propósito dessa obra o artista lembra:  “O que é a escultura?! O que é o realismo ?!” De um lado do disco o bater de um relógio, de três em três segundos; do outro lado o som do respirar, também de três em três segundos… “O disco espelhava uma condição humana, que eu tinha percebido e que queria transpor.”

Mais uma vez parece haver algo de muito importante para além de todas as fronteiras…

Record: The Space Between, 1971, 24 min.

Com uma bolsa da Fundação Guggenheim vive em Nova York em 1972. Sobre essa época dirá hoje: “Apesar de haver um lado experimental havia um ambiente profissional muito agressivo e pouco colaborador, sobretudo em relação a quem, para além de ser sul americano, vivia na Europa… Uma espécie de ser estranho!”

É nesta década que realiza uma série de trabalhos, A Ilustração da Arte, em que usando diversos meios como video, livro, fotografia, gravura ou pintura, questiona o acto de criar, de produzir, de vender e consumir a obra de arte. Apresenta o que parecem – devolvendo sempre ao espectador a gestão interpretativa do sentido – pertinentes apontamentos para a vida, muitas vezes irónicos e subtis; sobre a memória e o corpo, a política e a poesia, o olhar e a palavra, o ser e o ter, o estar e o agir, o criar…

Poeta/Pornógrafo, 1973, néon.

Com um rigor formal e um minimalismo aguçado, conceptual, são desta época trabalhos como Hands (1975) ou Poeta/Pornógrafo (1973), sedutoras e belas ironias cheias de humor e significado, que – como acontece com todo o seu extenso corpo de trabalho – mantêm a sua força aberta e actuante nos dias de hoje, ganhando sempre mais e maiores sentidos.

Aos 33 anos de idade, em 1977, parte para a India e Nepal. Trabalha com tibetanos nas técnicas de produção artesanal de papel: “Com eles eu aprendi a colorir, com materiais simples, com chá, diferentes plantas. E eu acrescentava outro tanto de maluquice, tipo carvão! Que flutua na água e é um inferno para se controlar para onde ele vai!” É aqui que imprime o album de xilogravuras Trama, concebido em Milão em 68. Mas haveria outros frutos bem importantes a colher dessa experiência: “O resultado foi um trabalho muito satisfatório para mim. Uma espécie de libertação  também daquele lado muito rígido, do conceptual onde eu mesmo me havia inventado uma jaula, onde não podia errar um milimetro daqui ali. Esse foi um momento de grande libertação, muito importante, libertou outro tipo de poética…“

Ainda no final da década de 70, Dias regressa ao Brasil, e é como professor convidado da Universidade Federal da Paraíba que cria o Núcleo de Arte Contemporânea em João Pessoa, com Paulo Sérgio Duarte. Com uma natureza assumidamente experimental e contemporânea, por aquele grupo de trabalho – dedicado a divulgar arte nacional e internacional naquele estado brasileiro – passariam muitos nomes que se tornariam de relevo, como Cildo Meireles, Anna Maria Maiolino, Tunga ou Valtércio Caldas. Publica o livro Política: ele não acha mais graça no público das próprias graças.

Retorna a Milão em 1980. Produz uma individual em Munique, paticipa na Bienal de Veneza. Três anos depois a crítica de arte francesa Catherine Millet escreveria: “Não há obra mais relativa que a de António Dias.” Na década de 80 realiza vários trabalhos com grafite, malaquita, óxido de ferro, pigmentos metálicos; nuances de cinza e negro em grandes dimensões como God Dog  (1986) ou Entre a Fábrica e o Machado (1987). Obras que, apesar de também explorarem a simetria e a dualidade, parecem carregar um forte peso orgânico – sempre com a acidez crítica tão cara ao artista, mas talvez com uma nova carga, um novo peso, um novo sentimento de perda ou desencanto, de ausência, de fim…Ao longo dessa década António Dias apresenta várias exposições, colectivas e individuais, no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Berlim, no MOMA de Nova York, em Taiwan… Vive em Berlim, em Colónia, em Milão – onde mantém sempre o atelier.

É nos anos 90 que é convidado a dar aulas. Em Salzburgo, na Áustria, e depois na Alemanha em Karlsruhe. Sobre a experiência enquanto professor Dias refere: “O ensino da arte é complicado, você forma melhor uma pessoa que trabalha com você (no atelier), onde a escolha é mútua. Quando trabalha vai dizendo coisas… do ambiente, da técnica, das atitudes… Desse ponto de vista quem passou pelo atelier deu-se bem, viveu mais.” De entre as várias exposições em que participou nos anos 90 destacamos uma no Rio, em 94. A propósito das pinturas Brazilian Painting/Bosnia´s Jungle, António refere: “Comecei utilizando a ampliação de um detalhe da pele de uma onça. Óbvio que é a primeira parte de um pattern (as manchas da pele) que encobre, mimetiza, mascara o que é ali praticado (a arte). Pensei na situação da Bósnia, onde um pattern de atrocidades encobre o interesse dos mercadores de armas. Da camuflagem artistica ao camaleão político.” Mais uma vez o artista parte da arte para tocar no politico, no social, na estreita condição do homem quando relegado para mero peão de jogos alheios… Na fundação Calouste Gulbenkian, em 99, acontece a exposição Antologia 1965-99, curada por Jorge Molder e Paulo Herkenhoff.

As Virgens de Colónia, 1999.

Ao longo dos anos 90 e 2000, na série Autonomias e em muitos outros trabalhos, repete-se o ouro, a folha de cobre, a malaquita, o óxido de ferro… Efeitos profundos a lembrar o tempo que transforma, longo; o vermelho sempre o vermelho que o acompanha sempre, padrões iguais a buracos do desgaste a furar o falso luxo; painéis sobrepostos e alternados como fortes tensões desencontradas mas unidas, juntas; verdes de água seca e dourados velhos de brilho fundo, teimosos e orgulhosos, mais verticais uns e deitados quase caídos outros, vencedores e vencidos; realizados e perdidos, cruzes, belas cruzes falsas, ostras velhas naquela Retina; a vermelha pupila, falos frágeis de vidro, pendurados e preenchidos falos, falsos como o que sobra do tempo passado…

Autonomias, 2000, 120x150cm.

Ao conterem em si um importante diagnóstico sumário da condição estreita de que partem, os objectos de Arte de António Dias, plenos de carga política e poética, condensam em si três espécies de acção: O resumo crítico de um presente;o sumário/chave para uma revolução ambiciosa e transformadora na relação com esse presente; o vislumbre/esgar de um futuro maior, possivel a posteriori. Parece ser assim com a obra Satélites, de 2002. Simultaneamente diagnósticos de uma estagnação; apelo urgente para uma elevação de posições; e anúncio claro da possibilidade ainda concentrada de partida para novos horizontes…

Satélites, 2002.

Mestre da politização do objecto, criador último dos simbolos de uma diagnose transversal, universal, António Dias foi oferecendo ao longo da sua vida  – através da sua poética particular – pistas e soluções para o mistério da mudança, em cada momento, em cada lugar, a cada um. E trabalha ainda, e sempre, Hoje, artesão elegante de uma beleza culminante, enriquecedora e provocante.

Fornalha, 2006, 120x240cm.

Sem Titulo, 2007, 90x270cm.

Sem Titulo, 2008, 120x240cm.

Umbigo, edição 10º Aniversário

Jorge Emanuel Espinho

Gisele Camargo – Falsa Espera, Esboço Vivo, Mistério ou A Paisagem Interior Plural

In ARTE on 09/04/2012 at 14:34

Há uma paisagem interior ativa que sempre nos acompanha, e que vamos descobrindo ao fazer e avançar nela, deslumbrados pioneiros/construtores que somos, explorando-nos; e explorando connosco o que mais tocamos.

Transformamos o mistério e a tragédia de estar vivos, nesse percurso pelo que vamos sendo. Revelamos a beleza do mundo nas cores pequenas que apenas vemos e que nos surgem, intuídas devagar. Cores que se esboçam como gestos íntimos que se cobrem cheios de emoções, fartos e orgulhosos; como se cobrem de novo depois, da dor funda e espessa desse importante e fecundo parto.

Estas pinturas que ninguém habita mostram lugares de permanente paragem cujo mistério nos pertence a todos, um puzzle estático mas ambicioso a exigir de nós o sentido e o significado, como fotografias aéreas de um lugar particular. São terras condenadas à permanência do silêncio, à procura da sequência perdida que lhes dará então corpo inteiro; do gesto simples que lhes trará enfim sentido; calor, palavra, riso. Mas ao contrário da falsa aridez que nos aparece, naquelas terras mora a fertilidade que acordará ruidosa e louca na semente. A onda alta a receber vermelha a gota…

Interrogação, certeza, mistério.

Que fará em nós o passar por ali, descobrir inventando a natureza daquele lugar, reconhecendo por fim a razão da sua existência; num golpe esparso da profunda memória, na curva brusca de um delírio tosco?

Estas paisagens pós-humanas apontam abrangentes para a escolha íntima, para o caminho próprio, devolvendo a cada um a luta com o seu pontual mistério. A ausência que se desprende daquela paz calma exige a consciência da paisagem escolhida, e a coragem clara de a percorrer.  Aqui ao segredo se responde com o desejo; ao medo da vida com a força da mudança; à tragédia com o crescimento; à pequena morte com a completude, bem maior…

Porque tudo permanecerá exactamente ali, muito tempo depois, mesmo…

Gisele Camargo, carioca de quarenta anos, escolhe de filmes de Werner Herzog ou Andrei Tarkovsky algumas cenas que lhe inspirarão as obras, pinturas que depois juntas formam painéis de dípticos e trípticos em instalações que continuam para lá dos cantos das paredes em que se apoiam. Com um método impecável realiza um estudo detalhado da procura, descobrindo o que será cada quadro, cada grupo de quadros, cada série; reduzindo ao seu essencial o que será depois preenchido com as linhas e os tons que se lhe revelarem. O seu caderno de estudos, verdadeiro manual dramatúrgico da sua pintura, é um fascinante documento singular, quase vivo; apostado na questionização gráfica potente e planeada mas aberta do tempo futuro, enigma transversalmente reconhecido.

Este processo de apropriação/processamento/criação configura na sua essência o que sempre todos fazemos. Mas desta obra maior resulta um objecto/paisagem de caráter verdadeiramente plural e significativo. Abrangente e intemporal, ela discute subtilmente a direção do nosso olhar quanto ao significado do seu maior sentido…

Este minimalismo expressivo, parco em cores e forte em raciocínio, trata assim do lugar interior plural, transformando uma longínqua aventura numa privada e maravilhosa odisseia. Dá-nos na tela em branco dessa comum pluralidade a exigência e a oportunidade de reconhecimento e conquista de um lugar próprio, nosso, exclusivo.

Numa das cenas do filme Stalker, de Tarkovsky, os três personagens partem enfim para a Zona, rodando sobre carris, a câmara captando os seus rostos, a paisagem difusa em pano de fundo alternando, sempre a preto e branco, com o cenário deserto dos arredores decadentes da cidade. Partem em busca de sentido, de si próprios, do seu lugar interior. A artista refere esta cena como uma das chaves possíveis para o seu trabalho. De facto, estendendo o olhar pelas paisagens que nos apresenta, encontramos nelas claramente explícita a possibilidade encorajada de uma grande viagem interior pertinente, aqui sem metáforas nem ponto de chegada, mas antes como um processo permanente, contínuo, enquadrado nesta depurada cenografia subjectiva que incentiva e cataliza a descoberta, a vivência, a possibilidade realizada.

O maravilhoso mar novo de uma linguagem estranha a pedir-nos urgentes a voz e as palavras…

Toda a pintura de Gisele Camargo será talvez assim uma grande Zona, espaço metafísico receptivo, um spleen progressivo em pano de fundo à maior pulsação que intuir conseguirmos.

Uma casa verdadeiramente nossa por habitar que teima em se transformar em labirinto…

Santa Art Magazine nº 8, Rio de Janeiro, Julho de 2012

Barrão – Frankensteins de Louça ou Retalhos da Beleza Maior

In ARTE on 30/01/2012 at 20:00

Na antecâmara do atelier de Barrão pessoas animais e outras coisas esperam, a postura congelada, que um capricho os liberte para a morte, o grande recomeço.

O destino artista reservou-lhes uma existência maior na forma de união com outros corpos. Será a mesma mão que os escolheu dentre muitos a destruir-lhes o corpo, bruta, para depois lhes colar os pedaços a outros; igualmente privilegiados pela escolha.

Tudo aquilo é uma espécie de ante câmara dos horrores, mas sem carne nem sangue – está seca a cerâmica que se esconde debaixo daquelas cores, do brilho fino daquele verniz.

O artista cria então, destruindo e reconquistando depois – numa soma de muitas e diferentes partes – um novo e estranho símbolo, e ser. Podemos ver aqui uma ópera trágica e divina, em três actos.

Acto Primeiro – Barrão escolhe as peças nas lojas, fábricas e mercados por onde passa; um reconhecimento do objecto pela estranheza, pela beleza ou por outra identificação, subtil ou não. Muitas vezes vai às compras numa excursão de caça em busca das suas belas presas – e este safari urbano é um passeio invejável!

Vai garimpando na deriva. Vai passear para ser seduzido. E sequestra depois as coisas ao mundo.

Acto Segundo – Acontece a morte violenta dos escolhidos, o ritual de quebrar, prazer também infantil mas não só. Imaginam-se cacos que voam, formas bicudas, sorrisos no ar. Esta brincadeira séria, acção fria de morte sobre as pequenas coisas sedutoras, rejeição do flirt a que se tinha entregue; é a zona explosiva do processo, o seu ponto alto. A orquestra entra aqui com tudo, a plateia arrepia. Isto corresponde à estocada final da tourada; à maior altura a que chega o foguete no ar; ao orgasmo no amor. Pode-se ver aqui em acção a máxima de que para se construir tem que se destruir primeiro, a lógica da tabula rasa.

De facto aqui o artista, – por detrás do prazer imediato que se imagina, – recusa as formatações existentes; e tendo-se-lhes antes entregue seduzido, assume essa recusa no acto concreto da destruição.

Isto é, claro, uma séria reacção à ordem fabricada das coisas; à formatação da beleza; à ausência de critérios próprios; à predefinição das curvas da própria aventura…

Acto Terceiro – Agora é-se deus a sério! Com a delicadeza e lentidão que a minúncia exige, Barrão reconstrói vida nova a partir da morte, colando pedaços de vários corpos num só corpo, objecto. Na ambição de uma nova totalidade, são aqui fundidos vários pequenos e efémeros amores num único amor; maior, próprio, ambicioso. De jorros invisiveis saiem os novos corpos, multiplicados…

Vê-se aqui o herói, também vilão, no centro do palco, como um joelheiro elegante concentrado na sua tarefa maior, a razão de toda a sua aventura: tentar construir, por repetição de tentativas, o corpo-ser perfeito: Aquele que, saído das suas mãos e da vontade do seu espírito, – recuperação somada do melhor que os pequenos amores fugazes deixaram – reúna toda as potencias possiveis; fazendo depois, da vida, uma história de facto superior. Talvez agora um violino gema solitário, o solo delicado de uma força maior, a ponta de um iceberg afectivo.

Há aqui uma revelação dramática escondida no epílogo: Todas as peças serão devolvidas ao mundo! Sendo esse o objectivo primário de toda a acção – entregar a outros o resultado final da aventura – podería falar-se de generosidade, se não fosse a ambição pessoal do artista o principal leitmotif. Claro que esta ambição jamais será satisfeita, aliás, o âmago da questão está precisamente na insatisfação e procura contínua, utópica afinal. Deve-se lembrar Beckett: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.”

O cadáver esquisito que é esta obra de arte importante, uma explêndida metáfora, é algo cruel mas honesta!: mataremos o mais belo que conseguirmos roubar ao mundo e dessas partes construiremos as pegadas cheias que iremos deixando – testemunhos da nossa existência – à vista de todos.

O Eros e o Thanatos são aqui experimentados e assumidos no seu explendor maior, fugaz mas intenso. Entre eles vive, ligando-os, uma alternância em espiral que tende ao infinito, sempre…

Se a estranha beleza de algumas obras seduz, estas mantêm um potente simbolismo que ultrapassa qualquer atracção meramente estética. Será assim previlegiado quem possuir um tão profundo testemunho circunstancial do percurso de vida e criação do artista.

Barrão é representado pelas galerias Fortes Vilaça em São Paulo,

e Laura Marsiaj no Rio de Janeiro.

Fotografias cortesia do artista.

Jorge Emanuel Espinho

Geopoéticas do Sul na Bienal de Porto Alegre – Sangue, Suor e Pele, Identidade, Fronteira

In ARTE on 14/12/2011 at 12:02

Impotentes perante as irredutíveis limitações do corpo, prisão maior, primeira e ultima fronteira, inventámos no mundo as separações oficiais dos povos; circunscrevemos na terra o espaço inteiro, reduzimos na geografia o enorme colectivo da vida. Retalhámos, cortámos, dividimos. Criámos simbolos graves a que nos amarrámos, hinos e ritos sérios como grades fechadas, e lutámos a impôr ao outro – e portanto a nós próprios – a pertença a uma naturalidade forçada.

Vamos assim nascendo já marcados com o carimbo da mãe pátria que nos amarra, aprendendo letras de um folclore que não sentimos, oficialmente encaixotados como peças soltas na orgulhosa forma maior de um país qualquer…

De algumas destas coisas, e bem de outras, tratam as obras apresentadas na  8ª Bienal do Mercosul – históricamente uma das zonas do globo com maior tradição de turbulência e opressão, guerra e desigualdade. Muitas vezes originários ou manipulados pelo exterior, aqui se fizeram chegar sanguinários eventos e comissários, que a ferro e fogo impuseram o dominio, a exploração e a chacina, a uma das zonas mais ricas e férteis da Terra; berço de algumas das civilizações mais complexas da história.

Paco Cao - El Veneno del Baile

Nesta enorme mostra, que envolve obras de 105 artistas vindos de 31 países, podemos separar as propostas em águas de duas correntes – que apesar de escorrerem paralelas, raro se misturam.

Por um lado uma abordagem de natureza mais simbólica e representativa, mais formal. Esta parte de simbolos tais como bandeiras, mapas ou estátuas para desconstruir e questionar a estrutura oficial e social da realidade proposta. A videoanimação de Alberto Lastreto, com um herói que salta de pedestal em pedestal; os mapas costurados de Anna Bella Geiger; a prateleira de Jean-François Boclé, em que vários produtos industriais nos fitam nas suas embalagens, à espera; a peça sonora de Santiago Serra, em que os hinos dos países do Mercosul se repetem sobrepostos; o sarcástico clip musical de Jonathan Harker; para citar alguns exemplos. Parece haver porém nestes trabalhos uma preocupação grande em responder, em afirmar, em localizar; uma irresistível vontade de caricatura, de ironia, até de humor… Parece que aqui algo de fundamentalmente real se escapou, ou não se tocou; ou que tudo é demasiado leve, ou estreito, ou pequeno… Uma excepção a esta lógica será o trabalho de Yanagi Yukinori, que parte da irrealidade intrínseca ás fronteiras artificiais,  exacerbada pelas migrações – que põem em causa conceitos como nacionalidade ou identidade. Em Eurásia o artista apresenta bandeiras de areia colorida em caixas interligadas, minadas por carreiros de formigas que escavam continuamente passagens e túneis através delas, e entre elas… Aqui, do carácter fortemente simbólico do trabalho, desprende-se uma clara realidade que dispensa truques, efeitos e palavras. Esta proposta viva esmaga a artificialidade e o dogmatismo do discurso comercial globalizante, assim como desmascara o ideário pedante da especificidade cultural do estado nação…

Anna Bella Geiger - Variáveis

Por outro lado encontramos trabalhos cuja forte proposição desvenda a própria realidade, muitas vezes de uma forma directa e dura, crua e cruel; mostrando sem floreados nem rodeios os efeitos e as feridas que o passado selvagem impôs na vida – na alma e no corpo – das gentes; as dores de que se fazem alguns partos… Talvez o maior exemplo de um retrato intemporal e contemporâneo sejam os videos Bocas de Ceniza, de Juan Manuel Echavarría, em que várias pessoas cantam a capella as trágicas histórias por que passaram. Aqui a dureza da realidade impõe-se com tal força que tudo questiona. A violência absurda perverte o conhecido, acontecendo. E toca-nos; em pequenos hinos sobre façanhas bárbaras, brutais e tristes, que nos inundam transbordantes…

Juan Manuel Echavarria - Bocas de Ceniza

http://jmechavarria.com/gallery/video/gallery_video_bocas_de_ceniza.html

Assumindo a subjectividade clara do critério, prefere-se aqui a força autêntica e poética, bruta e surda, explícita, da realidade nua; aos exercicios de estilo, aos esboços de design artistico, ás harmoniosas manobras estéticas com simbolos respeitáveis e estéreis. A coragem expressiva de alguns testemunhos, dolorosos, a generosidade e abertura com que são mostrados, o impacto honesto e real que provocam; tudo caminha crescendo, rumo ao lugar certo: a nossa memória sensivel, a nossa consciência, o humano que somos.

Dois outros trabalhos se impõem neste texto, também videos: a instalação Exorcismo, de Jose Alejandro Restrepo; e El Veneno del Baile, de Paco Cao. No primeiro, frente a um santo feito de gesso é projectado o video de uma intensa performance religiosa, – segundo o artista “um diálogo trans-histórico”, – que parece vir do fundo dos obscuros tempos e aludir também ás encenações/manipulações do cristianismo por terras indígenas. Manipulações estas, aliás, de uma actualidade indiscutível… No segundo caso, Paco Cao traça, numa transversalidade histórica, – e partindo de um livro que terá sido perseguido pela Inquisição, – uma narrativa feita de rituais mágicos e de passagem, ligados à lógica do poder e do shamanismo, em que a dança é o meio de elevação e afirmação. Também e sempre, sobre o outro.

José Alejandro Restrepo - Exorcismo

E seria triste se na dramaturgia abrangente desta Bienal não houvesse lugar para a Utopia, ou para o que com ela se vai nalguns casos fazendo…

Ykon - Ykon Game

Da primeira Cúpula Mundial de Micronações, organizada em 2003 em Helsilquia, saíu o colectivo Ykon; dedicado a apoiar e encorajar a existência de “nações sem representação, países experimentais e pensadores utópicos”, bem como formas alternativas de organização social, educação, e pós-nacionalismo. O colectivo concebeu o Ykon Game, que será jogado na Bienal, e prepara o Brioni Summit, encontro de micronações e activistas em 2013 na Croácia. Ykon realça que “nacionalidade e estado são construções mentais e socio-culturais recentes, que podem ser substituidos por outras formas de envolvimento e identidade.”

Por vezes a paisagem surpreende-nos… tal a fertilidade caótica e colorida de alguns caminhos…

Manuela Ribadeneira crava na parede uma faca que poderia estar no chão, na sombra lê-se Hago mío este territorio ! Talvez mais do que o desejo de posse ou propriedade estejamos aqui a entrar na ideia da terra a que verdadeiramente possamos pertencer, a nossa única, específica e particular, parte exterior de uma completude na vida, essa ambição assumida. Podendo reclamar obviamente apenas o que nosso for, a artista sugere aqui o reconhecimento e a apropriação do lugar fisico próprio, como afirmação primordial e última da existência. Também esta obra parece conter em si a semente primeira e pura de uma história maior …

Cortázar, filho de Buenos Aires nascido na Bélgica e vivido em Paris, escreveria um dia…

La Patria

Patria de lejos, mapa,
mapa de nunca.
Porque el ayer es nunca
y el mañana mañana.

 

Guardo un olor de trébol,
una calle con árboles,
un recuento de manos,
una luz sobre el río.

 

Patria, cartas que llegan
y otras que vuelven,
pájaros de papel
sobre el mapa volando.

 

Porque el ayer es nunca
y el mañana mañana.

Revista Sauna nº 15, Outubro de 2011, Buenos Aires, Argentina.

Alejandro Somaschini – Antropologia Simbólica do Homem, Visão Profunda

In ARTE on 19/11/2011 at 17:56

Grande parte da arte que encontramos hoje é uma orquestração superficial e sedutora de cores e formas, ou uma desarmonia atraente de vários formatos cacofónicos, todos juntos; ou é feita de pormenores subtis sublinhados repetidamente, até à exaustão. Tudo interpretações vazias, fracas e fáceis. A pseudo-criação encorajada pela multiplicidade de meios acessíveis, saídos da selva de babel – a pós-modernidade egóica. À ideia de Beuys – Every man an artist – respondeu-se superficialmente, numa práctica esvaziada e subvertida, espalhada como uma maldição negra.

A relação com a arte e suas obras tornou-se de tal forma rápida e fácil, estreita e estéril, que é fácil escaparem-nos as histórias maiores; habituados que estamos às aventuras fugazes. Estas também frutos dos vícios da preguiça.

O trabalho de Alejandro Somaschini é o resultado de um processo em que ao garimpar do passado os simbolos marcantes da sua importância, vai construindo, agora, uma arqueologia viva para o futuro. Nessa procura o artista identifica actividades e rituais, símbolos e substâncias, profissões, hábitos e materiais; tudo pedras de apoio neste perceptido caminho da história do homem. Pegando no termo site specific, aqui encontramos uma relação maior, particular mas profunda e abrangente, com a cidade e o país em que o artista realiza o seu trabalho. Poderíamos cunhar o termo identity specific, já que a perspectivação antropológica e o método decisivo de aproximação histórica e social, sempre com algum sarcasmo e espírito critico, são terrenos de eleição no seu processo criativo.

Na sua individual do ano passado no Rio de Janeiro – na Galeria Progetti, de Paola Colacurcio, uma das mais interessantes da cidade – Cetus, o próprio título avisava que entraríamos numa narrativa em que apenas se intuiría o início, como da árvore alta uma raiz. Fomos aqui levados no percurso de uma história que tendo como ponto de partida a descoberta do fóssil de um cetácio mitológico – de esqueleto em pvc, nas colinas de Santa Tereza, um bairro do Rio – logo assume um carácter alienigena, experimental, futurista e primitivo; a relembrar as aventuras e atmosferas de William Burroughs. Aquela viagem pelos pisos da galeria era a aproximação a uma criatura impossível, simultaneamente intuída e desejada por nós – crianças maravilhadas num laboratório louco – e desconstruída na bela ironia fantasiosa da sua invenção. Mapas de constelações estelares e plantas de escavação; tubos de pvc, óleo de automóvel queimado em aquários borbulhantes e fórmulas quimicas sobre azulejos; tudo nos levava de um inicial ponto de partida cósmico, mágico e misterioso, até à interacção com materiais de uso local e quotidiano, numa aproximação à especificidade da cidade em que tudo é assim realizado.

Vamos da ascenção no desejo de uma pureza mitológica, corporizada; ao encontro com a sujidade das máquinas e do ruído da vida urbana, nosso quotidiano concreto. A matéria fossilizada, o sangue antigo do planeta, é expelido gaseificado nos escapes das avenidas…

No seu projecto Máquina de La Fortuna encontramos o sumário de um pensamento realista mas transformador e ambicioso; a par com a consciência das limitações da vontade cercada pelo que existe, de facto. Dentro de uma caixa de vidro bonecos de peluche representam galeristas e críticos, museus e curadores, coleccionadores e fundações de arte; o lado mais formal do universo no qual o artista obrigatóriamente se movimenta. Uma grua pende suspensa sobre eles, pronta a ser manipulada através de um mecanismo básico e hoje ultrapassado, numa acção reconhecidamente lúdica e familiar. Para além da óbvia referência à relação da arte com a tecnologia, encontramos neste objecto/acção uma metáfora aguçada e satírica sobre a fragilidade da complicada teia de relações inerente ao percurso do artista.

As politicas do meio artístico ironizadas, brincadeira de crianças…

No ano passado Somaschini expôs em Lisboa, no Carpe Diem, a convite do entretanto desaparecido fundador e curador da instituição, Paulo Reis. Arquivo Carpe Diem resultou mais uma vez da introdução atenta e sensivel do artista à cidade e ao próprio palácio que alberga o centro de arte e pesquisa. Nas palavras do curador, “o artista cria (…) um arquivo de imagens, objetos, texturas que dão conta do espaço histórico no qual está situado, o Palácio Pombal. Ao recorrer a este dispositivo classificativo de entreposto, local de conservação e trocas comerciais, Alejandro Somaschini evoca o papel histórico de Portugal, em especial a zona portuária de Lisboa, desde a antiguidade até o processo de colonização dos séculos XV ao XX.” A propósito deste seu extenso trabalho, que ocuparia várias zonas do enorme palácio pombalino, Somaschini assumiria o carácter de amostra do mundo actual, possibilitando assim a descoberta por outros povos, futuros ou alienigenas, do nosso presente; após a “eminente catástrofe que a humanidade viverá”.

Mais uma vez fomos levados numa aventura por espaços e ambientes saídos de vários lugares e tempos; entrando e saíndo sempre de uma máquina invisível e avariada; que por isso mesmo nos mostra coisas que nunca soubémos, ou que já esquecemos…

Em 2011 o artista volta a Portugal. No contexto da 16ª Bienal de Cerveira, expõe na Casa das Artes, em Vigo, Espanha; em Lisboa apresenta uma individual na Galeria Graça Brandão, e mostrará ainda uma instalação na estufa do jardim do Museu da Cidade, laboratório e fonte de algum do trabalho exposto na galeria.

O titulo da colectiva curada por Fátima Lambert em Vigo soa a um desafio certeiro ao estilo de Somaschini – Arqueologia do Detalhe. O artista recuperou a instalação Sal, onde uma bancada com sal marinho recebe pedras e galhos, mel e azulejos antigos, ossos; tudo banhado numa luz negra. A pureza da neve recebe os resquícios nobres da primeira memória…

Na Galeria Graça Brandão o trabalho partirá – mais uma vez – de acontecimentos e períodos da história portuguesa cujo gigantesco simbolismo e importância ajudaram a definir a ideia que hoje se tem de Portugal, país e pátria; e obrigaram a reconstruir de raiz a capital, Lisboa. Por um lado o terramoto que destruíu a cidade em 1755, também as Descobertas, sobretudo a do Brasil, tudo cruzado com actual crise que assola o país e a Europa.

A estufa do museu da cidade funcionará como o laboratório onde se dará, num processo de transmutação alquimica – exercicio simbólico central no trabalho do artista, – a transformação de materiais esquecidos e degradados em peças valiosas através da sua cobertura com folha de ouro. Ao recuperar ossos, objectos velhos, para reinseri-los depois – já valorizados por uma nova pele dourada e pelo estauto de obra – no mercado de arte, trocando-os pelo valor absoluto do dinheiro, grita-se atenção para um passado que foi desprezado em nome da modernidade que agora desaba sobre todos. E responde-se a essa derrocada. Decorrerá na galeria uma acção de venda desses objectos por peça, ou peso – desmistificação irónica mas séria – numa bancada como as que se encontram nos mercados e feiras. Ao momento histórico da chegada de Pedro Álvares Cabral à india juntar-se-ão as notas emitidas 500 anos depois, comemorativas da épica ocasião, e um painel dourado, estendido ao alto como um espelho puro e nú.

Será interessante ver esta complexa leitura e escrita do nosso velho percurso e momento presente; das antigas glórias e actuais derrotas; a sombra pesada de um espírito velho; à luz clara e nova de um olhar saído do Sul. O artista é um explorador de preciosidades do passado que ganham vida em suas mãos e renascem, junto a outras novas em que se transformam, criando completas um caminho luminoso que atravessa o tempo, mostrando-nos a todos de que somos feitos e para onde iremos, seres depois elevados no olhar desse espelho.

Alejandro Somaschini vive em Buenos Aires, cidade onde nasceu em 1977. Trabalha e expõe regularmente também em Lisboa e no Rio de Janeiro, onde é representado pela galeria Progetti. Fotografias de Fernando Piçarra.

Catálogo da Exposição ” Entre o Arquivo e a Arqueologia, o Detalhe Quase Descansa…”

Quase Galeria, de 13 de Outubro a 3 de Dezembro de 2011, Porto, Portugal

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